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Ayn Rand (1964)

PLAYBOY: Senhora Rand, os seus romances, ensaios e, em especial, o seu polémico best-seller, A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged), apresentam uma visão do mundo cuidadosamente projetada e consistente. Efetivamente, são expressões de um abrangente sistema filosófico. O que esperava alcançar com essa nova filosofia?

RAND: Eu buscava fornecer aos homens – ou seja, àqueles que se dignam a pensar – uma visão integrada, consistente e racional da vida.

PLAYBOY: Quais são as premissas básicas do objetivismo? Em que ponto ele começa?

RAND: Ele parte do axioma de que a existência existe, o que significa que uma realidade objetiva existe independentemente de qualquer observador ou das emoções, sentimentos, desejos, expectativas ou medos do observador. O objetivismo defende que a razão é o único método pelo qual o homem pode apreender a realidade e que ela é seu único guia de ação. Razão, aqui, significa a faculdade que identifica e integra o material percebido pelos sentidos do homem.

PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, o herói John Galt declara: “Eu juro – por minha vida e por meu amor a ela – que eu nunca viverei por outro homem, nem pedirei para que outro homem viva por mim.” Como essa declaração se relaciona aos seus princípios básicos?

RAND: A declaração de Galt é um resumo dramático da ética objetivista. Qualquer sistema ético é baseado e derivado, implícita ou explicitamente, de uma metafísica. A ética derivada da base metafísica do objetivismo defende que, dado que a razão é a ferramenta básica do homem para sua sobrevivência, a racionalidade é sua maior virtude. Fazer uso de sua mente, perceber a realidade e agir de acordo com ela é o imperativo moral humano. O padrão de valor da ética objetivista é a vida do homem – a sobrevivência do homem como homem -, ou seja, aquela que a natureza de um ser racional necessita para sua sobrevivência apropriada. A ética objetivista, essencialmente, propõe que o homem existe em prol de si mesmo, que a busca de sua felicidade é seu propósito moral mais elevado, que ele não deve sacrificar a si mesmo em benefício alheio nem sacrificar os outros em benefício próprio.

PLAYBOY: Que tipo de moralidade é derivada disso, em termos de comportamento individual?

RAND: Isso é mostrado em detalhes em A Revolta de Atlas.

PLAYBOY: A heroína de A Revolta de Atlas era, em suas palavras, “completamente incapaz de experimentar a sensação de culpa fundamental”. É possível existir um sistema moral sem algum tipo de culpa?

RAND: A palavra mais importante na citação destacada por você é “fundamental”. O termo “culpa fundamental” não indica a capacidade de julgar as próprias ações e arrepender-se de ações erradas que tenham sido cometidas. A expressão indica que o homem é maligno e culpado por natureza.

PLAYBOY: Quer dizer, o pecado original?

RAND: Exatamente. É o conceito do pecado original que minha heroína, eu ou qualquer outro objetivista é incapaz de aceitar ou jamais experimentar emocionalmente. O conceito de pecado original é uma negação da moralidade. Se o homem é culpado por natureza, não há qualquer escolha. Sem escolha, a questão não pertence à alçada da moralidade. A moralidade trata apenas da esfera de livre arbítrio do homem – apenas aquelas ações que estão abertas às suas escolhas. Considerar o homem naturalmente culpado é uma contradição em termos. Minha heroína seria capaz de experimentar culpa por conta de ações específicas. No entanto, sendo uma mulher de grande estatura moral e de auto-estima, ela se certificaria de que jamais tivesse que sentir culpa por seus atos. Ela agiria de forma plenamente moral e, portanto, não aceitaria culpa imerecidamente.

PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, um de seus personagens principais é questionado: “Que tipo de ser humano é o mais corrupto?” Sua resposta é surpreendente: ele não diz que é um sádico, um assassino, um maníaco sexual ou um ditador; diz que é “um homem sem um propósito”. A maioria das pessoas aparentemente atravessa suas vidas sem qualquer propósito claramente definido. Você as considera corrompidas?

RAND: Sim, até certo ponto.

PLAYBOY: Por quê?

RAND: Porque tal aspecto de seus caráteres está na raiz e é a causa de todos os males mencionados em sua pergunta. O sadismo, as ditaduras, ou quaisquer formas de males, são consequências da fuga do homem da realidade. São consequências de seu não-pensar. Um homem sem propósito é um homem movido por sentimentos aleatórios ou desejos desconhecidos e é capaz de qualquer espécie de mal, porque está totalmente afastado do controle de sua própria vida. Para estar em controle de sua vida, é necessário ter um propósito – um propósito produtivo.

PLAYBOY: Não se pode dizer que Hitler e Stálin, dois tiranos, estavam em pleno controle de suas vidas e que possuiam propósitos bastante claros?

RAND: Certamente não. Perceba que ambos terminaram, literalmente, como psicóticos. Eram homens sem qualquer auto-estima e, portanto, odiavam a existência. A psicologia que se aplica a eles está resumida no personagem de James Taggart em A Revolta de Atlas. O homem que não possui um propósito, mas precisa agir, age para destruir os outros. Isso não é o mesmo que ter um propósito produtivo ou criativo.

PLAYBOY: Se uma pessoa organiza sua vida em torno de um propósito único e claramente definido, ela não corre o risco de se tornar seus horizontes demasiadamente limitados?

RAND: Muito ao contrário. Um propósito central serve para integrar todas as outras preocupações da vida do homem. Estabelece uma hierarquia, as importâncias relativas de seus valores, poupa-o de conflitos interiores sem sentido, permite que ele desfrute de sua vida de maneira ampla e que ele transfira esse desfrute para todas as áreas abertas a sua mente; por contraste, um homem sem propósito está perdido no caos. Não conhece seus valores. Não sabe como fazer julgamentos. Não é capaz de discernir o que é ou não importante para si e, dessa forma, move-se impotentemente à mercê de estímulos ao acaso ou de impulsos momentâneos. Não é capaz de desfrutar de nada. Passa sua vida buscando valores que jamais encontrará.

PLAYBOY: A tentativa de eliminar da vida quaisquer formas de impulsos e de agir de maneira totalmente racional não pode levar a uma existência seca e infeliz?

RAND: Devo dizer honestamente que não sei do que você está falando. Vamos definir nossos termos. A razão é a ferramenta do homem de conhecimento, a faculdade que o torna capaz de perceber os fatos da realidade. Agir racionalmente significa agir de acordo com os fatos da realidade. Emoções não são ferramentas cognitivas. O que você sente não transmite qualquer conhecimento a respeito dos fatos; transmite apenas a sua estimativa dos fatos. As emoções são o resultado de julgamentos de valor; são causadas por suas premissas básicas, que você possui consciente ou subconscientemente, que podem estar certas ou erradas. Um impulso é uma emoção cuja causa você desconhece e não pretende descobrir. Portanto, o que significa agir por impulso? Significa que o homem está agindo como um zumbi, sem qualquer conhecimento daquilo com que está lidando, daquilo que deseja conquistar, do que o motiva. Significa que o homem age em estado de insanidade temporária. É isso que você chama de interessante e feliz? Na minha opinião, só o que pode advir disso é sangue. Agir em contrariedade com os fatos só pode levar à destruição.

PLAYBOY: Deve-se ignorar totalmente as emoções, rejeitá-las da vida por completo?

RAND: Evidentemente não. Deve-se tão somente mantê-las em seu devido lugar. Uma emoção é uma reposta automática, um efeito automático das premissas valorativas do homem. Um efeito, não uma causa. Não há necessariamente conflito, não há dicotomia entre as emoções e a razão do homem – dado que se observe seu relacionamento apropriado. Um homem racional sabe – ou ao menos pretende descobrir – a fonte de suas emoções, as premissas básicas de que advêm; se são erradas, ele as corrige. Ele jamais age impelido por emoções inexplicadas, cujo significado desconhece. Ao avaliar uma situação, ele sabe por que ele reage como reage e se está certo. Ele não tem conflitos interiores, sua mente e suas emoções estão integradas, sua consciência está em perfeita harmonia. Suas emoções não são suas inimigas, são seus meios de desfrutar da vida. Mas não são seu guia; seu guia é sua mente. Esse relacionamento não pode ser revertido. Se o homem toma suas emoções como causa e sua mente como efeito passivo, se ele é guiado por suas emoções e sua mente serve apenas para racionalizá-las ou justificá-las, então ele está agindo de maneira imoral, condenando a si próprio à miséria, ao fracasso, à derrota, e não alcançará nada além de destruição – sua e dos outros.

PLAYBOY: De acordo com a sua filosofia, o trabalho e a conquista são os maiores objetivos da vida. Você considera imorais aqueles que encontram maior realização nos laços de amizade e família?

RAND: Se colocam coisas como amizade e família acima do trabalho produtivo, sim, são imorais. A amizade, a vida familiar e os relacionamentos humanos não são primordiais na vida do homem. Um homem que coloca os outros em primeiro lugar, acima de seu próprio trabalho criativo, é um parasita emocional; em contraste, se coloca seu trabalho em primeiro plano, não há conflito entre seu trabalho e seu desfrute dos relacionamentos humanos.

PLAYBOY: Você acredita que tanto mulheres quanto homens devam organizar suas vidas em torno do trabalho? Se sim, que tipo de trabalho?

RAND: Claro. Eu creio que mulheres sejam seres humanos. O que é apropriado para um homem é apropriado para uma mulher. Os princípios básicos são os mesmos. Eu não pretendo prescrever que tipo de trabalho um homem deva executar, e também não faria tal coisa em relação às mulheres. Não há trabalho que seja particularmente feminino. Mulheres podem escolher seu trabalho de acordo com seus propósitos e premissas da mesma maneira que os homens.

PLAYBOY: Em sua opinião, uma mulher que escolha dedicar-se à família e à casa ao invés da carreira é imoral?

RAND: Imoral, não – eu diria que ela é imprática, porque uma casa não pode ser uma ocupação plena, a não ser quando os filhos são muito jovens. No entanto, se ela deseja uma família e quer fazer daquilo sua carreira, ao menos temporariamente, seria apropriado caso ela lide com a questão como uma carreira, ou seja, caso ela estude a matéria e defina regras e princípios segundo os quais ela deseja criar seus filhos, abordando o assunto de maneira intelectual. É uma tarefa muito responsável e importante, mas somente quando tratada como ciência e não como indulgência emocional.

PLAYBOY: Onde, você diria, que se encaixa o amor romântico na vida de uma pessoa racional cuja única paixão motivadora é o trabalho?

RAND: É sua maior recompensa. O único homem capaz de experimentar um profundo amor romântico é aquele motivado pela paixão por seu trabalho – porque o amor é uma expressão de auto-estima, dos valores mais profundos no caráter de um homem ou mulher. A paixão ocorre entre pessoas que compartilham valores. Se um homem não tem valores claramente definidos e não possui caráter moral, ele não é capaz de apreciar outra pessoa. A propósito disso, eu gostaria de citar uma passagem de A Nascente na qual o herói profere uma frase que é frequentemente mencionada pelos leitores: “Para dizer ‘Eu te amo’, é necessário antes saber como dizer ‘eu’”.

PLAYBOY: Você defende que a felicidade própria é o fim mais elevado e que o auto-sacrifício é imoral. Isso se aplica ao amor tanto quanto ao trabalho?

RAND: Ao amor mais que a qualquer outra coisa. Quando se ama, isso significa que a pessoa por quem se é apaixonado é de grande importância pessoal e egoísta para você e para sua vida. Não fosse você egoísta, isso significaria que você não tem qualquer prazer ou feliidade da companhia e da existência da pessoa que você ama e que você é motivado somente por pena auto-sacrificante da necessidade daquela pessoa por você. Não é necessário que eu explique para você que ninguém deve se sentir lisonjeado ou aceitar um conceito dessa ordem. O amor não é um auto-sacrifício, mas a mais profunda afirmação de suas necessidades e valores. É por sua felicidade que você precisa da pessoa que ama, e esse é o maior elogio e tributo que você pode dar a ela.

PLAYBOY: Você condena a noção puritana de que o amor físico é feio ou mau; no entanto, você escreveu que “o desejo e a indulgência indiscriminados são possíveis apenas àqueles que consideram o sexo e a si próprios como maus”. Você diria que a indulgência sexual seletiva e discriminada é moral?

RAND: Eu diria que uma vida sexual discriminada e seletiva não é o mesmo que indulgência. O termo “indulgência” implica uma ação executada superficial e casualmente. Eu proponho que o sexo seja um dos mais importantes aspectos da vida do homem e que, portanto, não deve jamais ser tratado de forma superficial ou casual. Um relacionamento sexual é apropriado somente quando considerado um dos maiores valores que se pode encontrar num ser humano. O sexo não pode ser nada além de uma resposta a valores. E é por isso que eu considero a promiscuidade imoral. Não porque o sexo seja maligno, mas porque o sexo é bom e importante demais.

PLAYBOY: Isso significa, em sua opinião, que o sexo deva envolver somente parceiros casados?

RAND: Não necessariamente. O que o sexo deve envolver é um relacionamento muito sério. Se esse relacionamento deve ou não tornar-se um casamento é uma matéria circunstancial, a depender do contexto das vidas das duas pessoas em questão. Eu considero o casamento uma instituição muito importante, mas é importante quando e se duas pessoas tenham encontrado a pessoa com quem desejam passar o resto de suas vidas – uma questão sobre a qual nenhum homem ou mulher pode ter certeza automaticamente. Quando há a certeza de que a presente escolha é a final, então o casamento é, naturalmente, um estado desejável. Mas isso não significa que qualquer relacionamento baseado em menos que uma plena certeza seja inapropriado. Penso que a escolha entre um namoro ou um casamento depende do conhecimento e da posição das pessoas envolvidas e deve ser deixada para a decisão deles. Qualquer alternativa é moral, dado que as partes levem a sério a relação e que a baseiem em valores.

PLAYBOY: Como alguém que defende a causa do auto-interesse esclarecido, como você vê a dedicação da vida de uma pessoa à auto-gratificação hedonista?

RAND: Sou profundamente contrária à filosofia hedonista. O hedonismo é a doutrina que defende que o bem é o que quer que gere prazer e que, portanto, o prazer é o padrão de moralidade. O objetivismo defende que o bem deve ser definido por um padrão racional de valor, que o prazer não é uma causa primária, mas tão somente uma consequência, que somente o prazer advindo de um julgamento de valor racional pode ser considerado moral, e que o prazer, como tal, não é um guia de ação nem um padrão de moralidade. Dizer que o prazer deve ser o padrão de moralidade significa simplesmente que quaisquer valores que você tenha escolhido, conscientemente ou não, racionalmente ou não, são corretos e morais. Isso significa que você deve ser guiado por sentimentos, emoções e impulsos casuais. Minha filosofia é o contrário do hedonismo. Eu defendo que não é possível alcançar a felicidade através de meios aleatórios, arbitrários ou subjetivos. Por valores racionais, não quero dizer quaisquer coisas que o homem declare arbitrária ou cegamente serem racionais. É a moralidade, a ciência da ética, que deve definir para os homens o que é um padrão racional e quais são os valores racionais a ser buscados.

PLAYBOY: Você já afirmou que o homem que passa seu tempo tentando conquistar mulheres é um homem que “despreza a si mesmo”. Pode elaborar?

RAND: Esse tipo de homem reverte a causa e o efeito em relação ao sexo. Sexo é uma expressão de auto-estima, de auto-valor. Mas o homem que não valoriza a si próprio tenta reverter esse processo. Ele tenta derivar sua auto-estima de suas conquistas sexuais, o que não é possível de se fazer. Ele não pode adquirir seus valores das várias mulheres que o consideram valioso. Contudo, é isso que ele tenta fazer.

PLAYBOY: Você ataca a ideia de que o sexo é “imune à razão”. Porém, não é o sexo um instinto biológico não-racional?

RAND: Não. Para começar, o homem não possui quaisquer instintos. Fisicamente, o sexo é somente uma capacidade. Como o homem exercerá essa capacidade e quem ele considerará atraente depende de seus padrões de valor. Depende de suas premissas, que podem ser conscientes ou subconscientes, e que determinam suas escolhas. É dessa maneira que sua filosofia dita sua vida sexual.

PLAYBOY: O indivíduo não é dotado de fortes e não-racionais impulsos biológicos?

RAND: Não. O homem é dotado de certo tipo de mecanismo físico e de certas necessidades, mas não possui qualquer conhecimento de como satisfazê-las. Por exemplo, o homem precisa de alimento. Ele sente fome. Mas a não ser que ele aprenda a identificar essa fome e então aprenda que precisa de comida e como obtê-la, ele morrerá de fome. A necessidade, a fome, não dirá a ele como satisfazê-la. O homem nasce com certas necessidades físicas e psicológicas, mas não é capaz de descobri-las nem satisfazê-las sem o uso de sua mente. O homem tem que descobrir o que é certo ou errado para si como ser racional. Seus impulsos não o informarão o que fazer.

PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, você escreveu: “Há dois lados a todas as questões. Um é o lado certo, o outro, errado, mas o meio do caminho é sempre maligno.” Não é este um conjunto de valores um tanto preto-e-branco?

RAND: Certamente. Eu enfaticamente defendo uma visão de mundo preto-e-branca. Definamos esse termo. O que se quer dizer pela expressão “preto-e-branco”? Quer dizer bom e mau. Antes de identificar algo como “cinza”, como “meio do caminho”, é necessário saber o que é preto e o que é branco, porque o cinza é apenas uma mistura dos dois. E quando você estabeleceu que uma alternativa é boa e que a outra é ruim, não há justificativa para a escolha da mistura. Não há jamais qualquer justificativa para a escolha de parte daquilo que se sabe ser mau.

PLAYBOY: Então você acredita em absolutos.

RAND: Sim.

PLAYBOY: O objetivismo, portanto, não pode ser chamado de dogma?

RAND: Não. Um dogma é um conjunto de crenças aceitos por fé; ou seja, sem justificativa ou evidência racional. Um dogma é não mais que fé cega. O objetivismo é o exato oposto. O objetivismo prega que não se deve aceitar qualquer ideia ou convicção a não ser que se possa demonstrar sua veracidade por meio da razão.

PLAYBOY: Se amplamente aceito, não é possível que o objetivismo se torne um dogma?

RAND: Não. Acredito que o objetivismo seja sua própria proteção contra pessoas que possam tentar usá-lo como dogma. Uma vez que o objetivismo requer o uso da própria mente, aqueles que tentam pegar princípios gerais e aplicá-los indiscriminadamente aos concretos de sua existência veem que isso não pode ser feito. São compelidos a rejeitar o objetivismo ou a aplicá-lo apropriadamente. Ou seja, têm que usar suas mentes, seus pensamentos, para aplicar os princípios objetivistas aos problemas específicos de suas vidas.

PLAYBOY: Você já se disse contrária à fé. Você acredita em Deus?

RAND: Certamente não.

PLAYBOY: Há uma citação sua que diz: “A cruz é o símbolo da tortura, do sacrifício do ideal ao não-ideal. Eu prefiro o símbolo do dólar.” Você de fato acredita que dois mil anos de cristianismo podem ser resumidos à palavra “tortura”?

RAND: Primeiramente, eu nunca disse isso. Não é do meu estilo. Nem literário, nem intelectual. Eu não digo preferir o símbolo do dólar – essa é uma tolice barata, e por favor não deixe de publicar isto. Eu não sei da origem dessa citação em particular, mas o significado do símbolo do dólar é esclarecido em A Revolta de Atlas. Como explicado claramente na história, é o símbolo das livres trocas e, portanto, das livres mentes. Uma mente livre e uma economia livre são corolários. Uma não pode existir sem a outra. O símbolo do dólar, enquanto símbolo de um país livre, é o símbolo da mente livre. Mais que isso, uma hipótese histórica bastante provável, embora nunca provada, é que o símbolo do dólar advém das iniciais dos Estados Unidos. É o que tenho a dizer sobre isso. Agora, deixe-me falar sobre a cruz. O que é correto é que eu de fato considero a cruz o símbolo do sacrifício do ideal ao não-ideal. Não é isso que ela significa? Cristo, na filosofia cristã, é o ideal humano. Ele personifica aquilo que os homens devem se esforçar para emular. Contudo, de acordo com a mitologia cristã, ele morreu na cruz não por seus próprios pecados, mas pelos pecados de pessoas não-ideais. Em outras palavras, um homem de virtude perfeita foi sacrificado por homens que eram viciosos e que deviam aceitar aquele sacrifício. Se eu fosse cristã, nada me deixaria mais indignada: a noção de sacrifício do ideal ao não-ideal, de virtude ao vício. E é em nome desse símbolo que se pede os homens se sacrifiquem aos seus inferiores. É precisamente dessa maneira que o simbolismo é usado. Isso é tortura.

PLAYBOY: Nenhuma religião, em sua estimativa, jamais foi capaz de oferecer algo de valor à vida humana?

RAND: Enquanto religião, não – no sentido de crença cega, de crença sem base ou contrária aos fatos da realidade e às conclusões da razão. A fé, como tal, é extremamente deletéria à vida humana: é a negação da razão. Mas deve-se lembrar que a religião é uma forma primitiva de filosofia, que as primeiras tentativas de explicar o universo e dar ao homem uma estrutura coerente de referência e um código moral foram feitas pela religião, antes que o homem se desenvolvesse o suficiente para chegar à filosofia. E, enquanto filosofias, algumas religiões possuem valiosos ensinamentos morais. Podem ter boas influências ou princípios apropriados, porém num contexto muito contraditório e – como dizer? – numa base perigosa e maligna: a fé.

PLAYBOY: Então você diria que se tivesse que escolher entre o símbolo da cruz e o símbolo do dólar, você escolheria o dólar?

RAND: Eu não aceitaria essa escolha. Em outras palavras: se eu tivesse que escolher entre fé e razão, eu nem consideraria possível escolher. Enquanto humano, deve-se escolher a razão.

PLAYBOY: Você considera ricos empresários como os Fords e os Rockefellers imorais porque usam suas riquezas para caridade?

RAND: Não. É privilégio deles, se desejam fazer isso. Minhas opiniões a respeito da caridade são muito simples. Não a considero uma virtude maior e, acima de tudo, não a considero um dever moral. Não ha nada de errado em ajudar outras pessoas, se elas são dignas de ajuda e se você pode ajudá-las. Eu considero a caridade uma questão menor. O que eu combato é a noção de que a caridade é um dever moral e uma virtude primária.

PLAYBOY: Qual é o lugar da compaixão no seu sistema filosófico?

RAND: Eu considero a compaixão apropriada somente àqueles que sejam vítimas inocentes, mas não para com aqueles que são moralmente culpados. Se uma pessoa sente compaixão pelas vítimas de um campo de concentração, não pode senti-la pelos torturadores. Se uma pessoa sente compaixão pelos torturadores, trata-se de um ato de traição moral para com as vítimas.

PLAYBOY: Seria contrário aos princípios objetivistas sacrificar-se por outra pessoa, colocando-se na frente de uma bala que vai atingi-la?

RAND: Não. Depende das circunstâncias. Eu me colocaria no caminho da bala se ela fosse direcionada ao meu marido. Não é um auto-sacrifício morrer protegendo aquilo que você valoriza: se o valor é grande o bastante, você não se importa em existir sem ele. Isso se aplica a qualquer suposto sacrifício em prol daqueles que se ama.

PLAYBOY: Você estaria disposta a morrer por sua causa e seus seguidores devem estar dispostos a morrer por ela? Para o objetivista verdadeiramente anti-sacrifício, há alguma causa que valha sua própria vida?

RAND: A resposta a isso está bem explicada em meu livro. Em A Revolta de Atlas, eu explico que o homem deve viver e, se necessário, lutar por seus valores – porque o processo de viver consiste na conquista de valores. O homem não sobrevive automaticamente. Ele deve viver como um ser racional e não aceitar menos que isso. Ele não pode sobreviver como um bárbaro. Mesmo o mais simples dos valores, como a comida, deve ser criado pelo homem, deve ser plantado, deve ser produzido. O mesmo é verdadeiro em relação a suas conquistas mais importantes e interessantes. Todos os valores têm que ser ganhos e mantidos pelo homem e, se desafiados, ele deve estar disposto a lutar e morrer, se preciso, por seu direito de viver como um ser racional. Você me pergunta se eu estaria disposta a morrer pelo objetivismo. Sim, estaria. Porém, o que é mais importante, eu estou disposto a viver por ele – o que é muito mais difícil.

PLAYBOY: Sua ênfase na razão a coloca em conflito filosófico com autores, romancistas e poetas contemporâneos – muitos dos quais se admitem como místicos ou irracionalistas. Por que isso ocorre?

RAND: Porque a arte tem uma base filosófica e as tendências filosóficas de hoje em dia são formas de neo-misticismo. A arte é uma projeção das visões fundamentais do artista em relação ao homem e à existência. Já que a maioria dos artistas não desenvolve uma filosofia independentemente, eles absorvem, consciente ou inconscientemente, as influências filosóficas mais conspícuas de seu tempo. A maior parte da literatura atual é um reflexo preciso da filosofia contemporânea – olhe para ela!

PLAYBOY: Um escritor não deve refletir o seu tempo?

RAND: Não. Um escritor deve ser um ativo líder intelectual de seu tempo, não um seguidor passivo de qualquer fluxo. Um escritor deve moldar os valores de sua cultura, deve projetar e concretizar os valores da vida humana. Essa é a essência da escola romântica de literatura, que quase desapareceu da cena literária atual.

PLAYBOY: O que nos coloca em qual posição, literariamente?

RAND: No beco sem saída do naturalismo. O naturalismo defende que o escritor deve ser um fotógrafo passivo ou um repórter que deve transcrever acriticamente o que quer que ele observe a seu redor. O romantismo defende que o escritor não deva simplesmente mostrar as coisas tais quais são a determinado momento mas, para citar Aristóteles, “como podem ser e devem ser”.

PLAYBOY: Você diria que é o último representante dos românticos?

RAND: Ou o primeiro de seu retorno, para usar uma fala de um de meus personagem em A Revolta de Atlas.

PLAYBOY: Qual a sua avaliação da literatura contemporânea em geral?

RAND: Filosoficamente, imoral. Esteticamente, aborrecida. Está se degenerando, dedicando-se exclusivamente a estudos de depravação. Não há nada mais desinteressante que a depravação.

PLAYBOY: Há algum romancista que você admire?

RAND: Sim, Victor Hugo.

PLAYBOY: Algum romancista moderno?

RAND: Não há ninguém que eu admire entre os escritores ditos sérios. Prefiro a literatura popular atual, que é a remanescência do romantismo. Dela, meu escritor preferido é Mickey Spillane.

PLAYBOY: Por que gosta dele?

RAND: Por que ele é, primariamente, um moralista. De forma primitiva, na forma de um romance policial, ele apresenta o conflito do bem e do mal, do preto e do branco. Ele não mostra nenhuma mistura cinzenta repulsiva em que há canalhas indistintos dos dois lados. Apresenta um conflito irreconciliável. Como escritor, ele é brilhante no aspecto da literatura que eu considero mais importante: o enredo.

PLAYBOY: O que você pensa de Faulkner?

RAND: Não muito. Bom estilista, mas praticamente ilegível em conteúdo – li muito pouco dele.

PLAYBOY: E quanto a Nabokov?

RAND: Li somente um livro e meio dele – o meio foi Lolita, que não consegui terminar. Brilhante em estilo, escreve muito belamente, mas seus assuntos, seu senso de vida e sua visão do homem são tão malévolos que nenhuma quantidade de habilidade artística pode justificá-los.

PLAYBOY:: Enquanto romancista, você considera a filosofia o propósito principal de sua escrita?

RAND: Não. Meu propósito principal é a projeção de um homem ideal, de “como ele pode e deve ser”. A filosofia é o meio necessário para atingir essa finalidade.

PLAYBOY:: Em um de seus romances anteriores, Anthem, seu protagnista declara: “É o meu arbítrio que faz a escolha, e a escolha do meu arbítrio é o único édito que eu respeito”. Isso não é anarquismo? O desejo ou a vontade pessoal é a única lei que se deve respeitar?

RAND: Não simplesmente a vontade própria. Essa é, mais ou menos, uma expressão poética usada no contexto da história em Anthem. Trata-se do julgamento racional próprio. Veja bem, eu uso a expressão “livre arbítrio” de maneira completamente diversa de como ela é normalmente utilizada. O livre arbítrio é a capacidade humana de pensar ou não pensar. O ato de pensar é o ato primário de escolha. Um homem racional jamais será guiado por desejos ou impulsos, somente por valores baseados em seus julgamentos racionais. Essa é a única autoridade que ele é capaz de reconhecer. Isso não significa anarquia, porque, se um homem deseja viver numa sociedade livre e civilizada, ele, racionalmente, teria que escolher a observância de leis – na medida em que essas leis seja objetivas, racionais e, portanto, válidas. Eu já escrevi um artigo a esse respeito para The Objectivist Newsletter, sobre a necessidade e a função apropriada do governo.

PLAYBOY:: Qual, em sua visão, é a função apropriada do governo?

RAND: Basicamente, só há uma função apropriada: a proteção dos direitos individuais. Uma vez que direitos podem ser violados tão somente pela força física e por certas derivações da força física, a função apropriada do governo é a proteção dos homens daqueles que iniciam o uso da força física – ou seja, de criminosos. A força, numa sociedade livre, pode somente ser utilizada em retaliação e somente contra aqueles que iniciam seu uso. Tal é a tarefa apropriada do governo: a de servir como policial que protege os homens do uso da força.

PLAYBOY:: Se a força só pode ser usada em retaliação contra o uso da força, o governo tem direito, por exemplo, de coletar impostos ou de obrigar o alistamento militar?

RAND: Em princípio, eu acredito que a taxação deva ser voluntária, como tudo o mais. Porém, a implementação dessa ideia é uma questão bastante complexa. Eu posso apenas sugerir certos métodos, mas não insistiria que eles fossem respostas definitivas. Uma loteria estatal, por exemplo, usada em muitos países da Europa, é um bom método de taxação voluntária. Existem outros. Os impostos devem ser contribuições voluntárias aos serviços apropriados do governo, aqueles necessários às pessoas e que portanto todos estariam e deveriam estar dispostos a pagar – da mesma forma que pagam por diversas formas de seguros. Mas, claro, esse é um problema para o futuro distante, para um tempo em que o homem estará prestes a implementar um sistema social plenamente livre. Seria a última, não a primeira reforma na qual se pensar. Quanto à questão do alistamento obrigatório, é injusto e inconstitucional. É uma violação dos direitos fundamentais do homem, do direito humano à própria vida. Nenhum homem tem o direito de enviar outro homem para lutar e morrer por sua causa – pela causa daquele que envia. Um país não tem direito de forçar os homens à servidão. Exércitos devem ser estritamente voluntários; e, como hão de dizer as autoridades militares, exércitos voluntários são os melhores.

PLAYBOY:: E quanto a outras necessidades públicas? Você considera, digamos, que os correios sejam uma instituição governamental apropriada?

RAND: Deixe-me ser bem clara aqui. Minha posição é totalmente consistente. Não apenas os correios, mas também as ruas, estradas e, acima de tudo, escolas devem ser propriedade privada e mantidas por entes privados. Eu defendo a separação do estado e da economia. O governo deve somente se concentrar com as questões que envolvem o uso da força. Ou seja: polícia, exército e os tribunais para resolver disputas legais. Nada mais. Todo o resto deve ser privado, e nesse caso seria muito melhor administrado.

PLAYBOY:: Você criaria algum novo departamento ou alguma nova agência governamental?

RAND: Não, e eu não sou capaz de discutir questões dessa maneira. Eu não sou um planejador estatal e não gasto o meu tempo concatenando utopias. Falo de princípios cujas aplicações práticas são claras. Se eu já disse que sou oposta à iniciação de força, o que mais se precisa discutir?

PLAYBOY:: E quanto à força nas relações exteriores? Você disse que qualquer nação livre tinha o direito de invadir a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial…

RAND: Certamente.

PLAYBOY:: … E que qualquer nação livre de hoje em dia tem o direito moral – embora não o dever – de invadir a Rússia soviética, Cuba ou outros países “senzalas”. Correto?

RAND: Correto. Uma ditadura – um país que viola os direitos de seus próprios cidadãos – é um regime criminoso e não tem quaisquer direitos.

PLAYBOY:: Você defenderia uma invasão americana à Cuba ou à União Soviética?

RAND: No presente momento, não. Eu não considero que seja necessário. Eu defenderia aquilo que a União Soviética mais teme: o boicote econômico. Eu defenderia um bloqueio a Cuba e um boicote econômico à Rússia Soviética. Dessa forma, ambos os regimes entrariam em colapso sem a perda de uma única vida americana.

PLAYBOY:: Você defenderia o fim das relações diplomáticas com a Rússia?

RAND: Sim. Não apoio a pretensão grotesca de uma organização supostamente dedicada à paz mundial e aos direitos humanos que inclua em suas fileiras a Rússia Soviética, o maior agressor e o regime mais sanguinário da história. A noção de proteger direitos com a inclusão da Rússia soviética é um insulto ao conceito de direitos e à inteligência de qualquer homem a quem se peça o endosso ou a sanção de uma organização desse tipo. Eu não acredito que um indivíduo deva cooperar com criminosos e, pelas mesmas razões, não acredito que países livres devam cooperar com ditaduras.

PLAYBOY:: Quais são suas visões a respeito do tratado de banimento aos testes nucleares que foi recentemente assinado?

RAND: Concordo com o discurso de Barry Goldwater a esse respeito no Senado. As melhores autoridades militares e, sobretudo, a maior autoridade científica, o dr. Teller, criador da bomba de hidrogênio, afirmam que esse tratado não é apenas irrelevante, como também perigoso à segurança dos Estados Unidos.

PLAYBOY:: Se o senador Goldwater for nomeado candidato republicano em Julho, você votaria nele?

RAND: No momento, eu diria que sim. Quando falo “no momento”, eu digo no momento em que esta entrevista está sendo registrada. Eu discordo dele em muitos pontos, mas concordo, em sua maior parte, com a política externa dele. De todos os candidatos potenciais de hoje, considero Barry Goldwater o melhor. Eu votaria nele se ele nos oferecer uma plataforma plausível ou, no mínimo, semi-consistente.

PLAYBOY:: E quanto a Richard Nixon?

RAND: Me oponho a ele. Me oponho a quem faz concessões e não tem ideias próprias, e nesses quesitos o sr. Nixon provavelmente é o campeão.

PLAYBOY:: E quanto ao presidente Johnson?

RAND: Não tenho opinião em particular sobre ele.

PLAYBOY:: Você é declaradamente anti-comunista, anti-socialista e anti-liberal. No entanto, você rejeita a noção de que seja conservadora. De fato, você reserva alguns de seus comentários mais negativos aos conservadores. Qual é a sua posição política?

RAND: Correção. Eu nunca descrevo minha posição em negativos. Eu advogo o capitalismo laissez-faire, os direitos individuais (não existem outros) e a liberdade individual. É sobre essa base que eu me oponho a quaisquer doutrinas que proponham o sacrifício do indivíduo ao coletivo, como o comunismo, o socialismo, o estado de bem-estar, o fascismo, o nazismo e o moderno liberalismo. Eu sou contrária aos conservadores da mesma maneira. Os conservadores defendem uma economia mista e um estado de bem-estar. Se diferenciam dos liberais em grau, não em princípio.

PLAYBOY:: Você já afirmou que os Estados Unidos estão em bancarrota intelectual. Você inclui nessa condenação publicações de direita como a National Review? Essa revista não é uma voz poderosa contra todas as coisas que você considera “estatismo”?

RAND: Eu considero a National Review a pior e a mais perigosa revista nos EUA. O tipo de defesa que ela oferece ao capitalismo não resulta em nada a não ser no descrédito e na destruição do capitalismo. Quer que eu diga por quê?

PLAYBOY:: Sim, por favor.

RAND: Porque ela liga o capitalismo à religião. A posição ideológica da National Review se resume, com efeito, ao seguinte: para aceitar a liberdade e o capitalismo, deve-se acreditar em Deus ou em alguma forma de religião ou misticismo sobrenatural. O que significa que não há bases racionais por que defender o capitalismo. O que se trata de uma admissão de que a razão está ao lado dos inimigos do capitalismo, de que uma sociedade escravista ou uma ditadura são sistemas racionais, e que somente com base numa fé mística podemos acreditar na liberdade. Nada mais depreciativo ao capitalismo que isso pode jamais ser dito, e o exato oposto é a verdade. O capitalismo é o único sistema que pode ser defendido e validado pela razão.

PLAYBOY:: Você atacou o governador Nelson Rockefeller por “colocar todos os oponentes do estado de bem-estar num mesmo grupo, ao lado de lunáticos”. Estava claro nas observações dele que ele criticava a John Birch Society. Você se ofende ao ser colocada no mesmo grupo que os integrantes da John Birch? Você os considera “lunáticos” ou uma força do bem?

RAND: Eu me ofendo ao ser colocada no mesmo grupo que qualquer um. Eu me ofendo com o método moderno de nunca definir ideias e agrupar pessoas completamente diferentes num coletivo por meio de calúnias e termos depreciativos. Eu me ofendo pelas táticas de calúnia do governador Rockefeller: sua recusa em identificar especificamente a quem e a que se refere. Quanto a mim, eu repito, eu não desejo ser agrupada com ninguém e certamente não com a John Birch Society. Se os considero lunáticos? Não, não necessariamente. O que há de errado com eles é que eles não parecem ter qualquer filosofia política específica e claramente definida. Portanto, alguns deles podem ser lunáticos, outros podem ser cidadãos de boa fé. Eu considero a Birch Society fútil, porque não são pró-capitalismo, são contra o comunismo. Percebo que eles acreditam que o estado desastroso do mundo atual é causado por uma conspiração comunista. Essa é uma visão infantil e superficial. Nenhum país pode ser destruído por uma mera conspiração – países só são destruídos por ideias. Os Birchers parecem ser não-intelectuais ou anti-intelectuais. Não dão importância a ideias. Não percebem que a grande batalha do mundo atual é um conflito filosófico e ideológico.

PLAYBOY:: Existem grupos políticos nos EUA atualmente que você aprova?

RAND: Grupos políticos em si, não. Existe algum grupo político hoje em dia que seja totalmente coerente? Esses grupos atualmente são são guiados por – e defendem – contradições gritantes.

PLAYBOY:: Você tem alguma aspiração política? Já considerou concorrer a algum cargo eletivo?

RAND: Certamente não. Creio que você não me odeie tanto para desejar que eu faça tal coisa.

PLAYBOY:: Mas você tem interesse em política, ou ao menos em teoria política, não tem?

RAND: Deixe-me responder dessa maneira: quando eu cheguei aqui, saindo da Rússia soviética, eu me interessava em política por somente uma razão – para chegarmos num dia em que eu não teria que ter interesse em política. Eu desejava uma sociedade na qual eu estaria livre para perseguir minhas preocupações e objetivos, sabendo que o governo não interferiria para destruí-los, sabendo que minha vida, meu trabalho e meu futuro não estariam à merc~e do estado ou dos impulsos de um ditador. Essa é minha atitude ainda hoje. Porém, eu sei hoje que essa sociedade é um ideal que ainda não foi atingido, que eu não posso esperar que outros o atinjam por mim e que eu, como todos os outros cidadãos responsáveis, devo fazer tudo que esteja a meu alcance para atingi-lo. Em outras palavras, eu somente me interesso em política para assegurar e proteger a liberdade.

PLAYBOY:: Em toda a sua obra, você argumenta que a maneira pela qual o mundo contemporâneo está organizado, mesmo em países capitalistas, afoga o indivíduo e impede a livre iniciativa. Em A Revolta de Atlas, John Galt lidera uma greve de homens da mente – que resulta no colapso da sociedade coletivista ao redor deles. Você acha que a hora chegou de os artistas, intelectuais e empresários criativos retirarem seus talentos da sociedade daquela forma?

RAND: Não, ainda não. No entanto, antes que eu explique esse ponto, eu devo corrigir um trecho de sua pergunta. O que temos hoje em dia não é uma sociedade capitalista, mas uma economia mista – isto é, uma mistura de liberdade e controle, que, a julgar pela tendência dominante, deve se transformar em ditadura. Em A Revolta de Atlas, os acontecimentos ocorrem num momento em que a sociedade alcançou o estágio de ditadura. Quando – e se – isso acontecer será o momento da greve, mas até lá, não.

PLAYBOY:: Qual o seu conceito de ditadura? Como você a definiria?

RAND: Uma ditadura é um país que não reconhece os direitos individuais, cujo governo possui poder total e ilimitado sobre os homens.

PLAYBOY:: Qual é a linha divisória, pela sua definição, entre uma economia mista e uma ditadura?

RAND: Uma ditadura tem quatro características: partido único, execuções sem julgamento por crimes políticos, expropriação e nacionalização da propriedade privada e censura. Sobretudo, esta última. Enquanto os homens puderem falar e escrever livremente, enquanto não houver censura, há ainda uma chance de reformar a sociedade e colocá-la num caminho melhor. Quando a censura é imposta, esse é o sinal de que os homens devem entrar em greve intelectual – isto é, não devem cooperar com o soistema social de forma alguma.

PLAYBOY:: Se não for por meio de uma greve dessa natureza, o que você aha que deve ser feito para trazer as mudanças sociais que você acredita serem desejáveis.

RAND: São as ideias que determinam as tend~encias sociais, que criam ou destroem sistemas sociais. Portanto, as ideias corretas, a filosofia certa, deve ser defendida e divulgada. Os desastres do mundo moderno, inclusive a destruição do capitalismo, foram causadas pela filosofia altruísta-coletivista. É o altruísmo que deve ser rejeitado pelo homem.

PLAYBOY:: E como você define “altruísmo”?

RAND: É o sistema moral que defende que o homem não tem direito de existir em prol de si mesmo, que servir aos outros é a justificação única de sua existência, e que o auto-sacrifício é o maior dever, valor e virtude moral. Essa é a base moral do coletivismo e de todas as ditaduras. Para buscar a liberdade e o capitalismo, o homem precisa de um código de ética não-místico e não-altruísta – uma moralidade que defenda que o homem não é um animal de sacrifício, que ele tem direito de existir por si próprio, sem sacrificar ele mesmo aos outros nem os outros a si. Em outras palavras, o que é desesperadamente necessário hoje em dia é a ética objetivista.

PLAYBOY:: Essencialmente, o que você diz, portanto, é que essas mudanças devem ser atingidas por meios educacionais ou propagandísticos?

RAND: Sim, claro.

PLAYBOY:: O que você pensa da alegação de seus opositores de que os princípios políticos e morais do objetivismo a colocam fora das principais correntes do pensamento americano?

RAND: Eu não reconheço como válido um conceito como uma “corrente principal de pensamento”. Isso pode ser apropriado para uma ditadura, para uma sociedade coletivista na qual o pensamento é controlado e na qual há uma pensamento principal coletivo – constituído de slogans, não de ideias. Não existe coisa do tipo nos Estados Unidos. Nunca existir. Contudo, eu já ouvi essa expressão ser usada com o propósito de barrar da comunicação pública qualquer indivíduo inovador, qualquer não-conformista, quem quer que tenha algo de original a oferecer. Eu sou uma inovadora. Esse é um termo de distinção, de honra, e não algo para se esconder ou pelo que se desculpar. Quem quer que tenha ideias novas e valiosas a oferecer se coloca fora do status quo intelectual. Mas o status quo não é uma corrente, nem muito menos uma “corrente principal”. É um lamaçal estagnado. São os inovadores que carregam a humanidade à frente.

PLAYBOY:: Você acredita que a filosofia objetivista vai eventualmente converter o mundo?

RAND: Ninguém é capaz de responder uma pergunta assim. Os homens possuem livre arbítrio. Não há garantias de que escolherão ser racionais em algum momento ou em alguma geração. Não é necessário que uma filosofia “converta o mundo”. Se você fizer a mesma pergunta de forma um pouco diferente, digamos, se você perguntar se eu acho que o objetivismo será a filosofia do futuro, eu direi que sim, só que com este porém: se os homens se voltarem à razão, se não forem destruídos por ditaduras ou jogados numa nova Idade das Trevas, se os homens permanecerem livres por tempo o bastante para poderem pensar, então o objetivismo será a filosofia que aceitarão.

PLAYBOY:: Por quê?

RAND: Em todo período histórico no qual os homens foram livres, foi vencedora a filosofia mais racional. É por essa perspectiva que eu digo que, sim, o objetivismo vencerá. Entretanto, não há garantias, não há nenhuma necessidade pré-determinada.

PLAYBOY:: Você é muito crítica do mundo como você o vê atualmente e seus livros oferecem propostas radicais para mudar não só a forma da sociedade, mas a própria maneira pela qual a maioria dos homens trabalham, pensam e amam. Você é otimista quanto ao futuro do homem?

RAND: Sim, sou otimista. O coletivismo, como força intelectual e ideal moral, está morto. Mas a liberdade e o individualismo, e sua expressão política, o capitalismo, ainda não foram descobertos. Eu penso que os homens terão tempo para descobri-los. É significativo que a agonizante filosofia de hoje em dia não tenha produzido nada além de um culto à depravação, à impotência e ao desespero. Olhe para a arte e a literatura modernas, que veem o homem como criatura impotente e estúpida, fadada ao fracasso, à frustração e à destruição. Essa deve ser a confissão psicológica dos coletivistas, mas não é uma imagem apropriada ao ser humano. Se fosse, nós nunca teríamos saído das cavernas. Mas saímos. Olhe à sua volta e olhe a história. Você verá as conquistas da mente humana. Você verá o potencial ilimitado do homem para a grandeza, e a faculdade que a torna possível. Você verá que o homem não é um monstro impotente por natureza, mas que ele se torna um quando descarta essa faculdade: sua mente. Se você me perguntar “O que é grandeza?”, eu responderei: é a capacidade de viver de acordo com os três valores fundamentais de John Galt: razão, propósito, auto-estima.


Entrevista de Alvin Toffler para a edição de março de 1964 da revista Playboy. Tradução de Erick Vasconcelos (fonte).