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George Steiner (2002)

O nome impõe um respeito imediato. Para os admiradores, ele é o crítico de literatura mais consistente e mais influente de todo o século XX. O autor de uma dezena de livros fundamentais para compreender o mundo em que vivemos e o mundo em que pensamos e escrevemos. (…) Os seus leitores formam uma comunidade, como escreveu John Banville, inclusiva. Quase religiosa, dir-se-ia. Muito mais do que Harold Bloom, Steiner é o último sábio, o grande humanista. Que resiste ao lugar-comum e ao «kitsch» do pensamento contemporâneo.

Ouvi-lo é um prazer, um exercício da lucidez que já não existe. Ele diz que não poderia viver sem Schubert, nem sem xadrez, nem sem os passeios nas montanhas da Suíça, país onde é tratado como Professor Emmeritus, em Genève. Em Cambridge, onde vive e lecciona, é famoso pelas suas opiniões e o seu génio. Em Oxford, é Honorary Fellow e em Harvard é recebido como um mestre. A sua tradição é a de uma Europa que respeita os saberes e constrói o prestígio das universidades. O seu mundo é o dos livros, que não lhe desviam a atenção dos problemas do século.

Clara Ferreira Alves - Já escreveu sobre a morte da tragédia. E a anunciada morte do romance?
George Steiner - Muito poucos romances são sobre pessoas crescidas, hoje. Existe uma terrível infantilidade na maioria da ficção. O romance não conseguiu tratar os grandes assuntos do nosso tempo. Alguns textos trataram os horrores do século XX sem serem completamente inadequados, mas são poucos. E se acreditarmos que o nosso mundo está todo a ser transformado pela ciência, em todos os aspectos, com três grandes portas que se abrem, o romance falhou. A primeira é a criação de vida molecular, que mudará tudo, a lei, a filosofia, a teologia, tudo. A segunda, os limites do universo e a teoria de Hawking e por aí fora. E terceira, a compreensão da consciência.
Quando digo Eu ou Tu, estou a falar de quê? De açúcar no sangue, ou de uma certa combinação de macromoléculas de carbono? Ninguém, desde Musil, ou Thomas Mann, tentou sequer mostrar a vida da ciência, na mente e nos sonhos. Talvez os escritores mais importantes tenham sido os que escreveram ficção científica, Asimov, Clarke...
CFA - Philip K. Dick?
GS - Absolutamente, ele previu tudo, dos satélites artificiais ao Valium, o Valium que já estava n’«O Admirável Mundo Novo» do Aldous Huxley, um livro brilhante de um homem que tinha sido treinado pela ciência. Eu acho que existe uma preguiça do romance, não faz o trabalho de casa. Não existia um ramo da ciência que Milton, ou Dante, ou Shakespeare, não conseguissem espreitar. Quem, entre os grandes escritores, consegue falar da grande crise económica, como o fizeram Balzac ou Zola, ou um menos conhecido, o Trollope, na Inglaterra, com «The Way We Live Now»? A primeira grande crise dos ciclos económicos. Eu sou muito impopular em Inglaterra por causa de dizer que a maioria dos nossos romances são sobre adultério em Kensington."
CFA - Poria Martin Amis nesse grupo?
GS - Não. Martin Amis trouxe à prosa inglesa uma certa energia americana. «Money» é um livro brilhante. Mas são paródias da América, não se comparam com a inteligência política de Philip Roth, com o interesse de Saul Bellow na ciência. Existem alguns escritores de valor, claro. O que eu queria dizer, e estava a exagerar, é que numa prateleira de livros escritos hoje, os vinte melhores, onde o estilo é mais poderoso, são de História. Grande período para a História, a Biografia, e alguns grandes textos filosóficos.
CFA - Existem grandes filósofos?
GS - Sem dúvida, se se quiser saber o que se passa na cultura ocidental os nomes são os de Foucault, Barthes, Lacan, Derrida, que não escrevem romances, escrevem formas mais complicadas. O romance tornou-se uma palavra alemã muito feia «Unterhaltungsliteratur», literatura de entretenimento. Quando se está cansado à noite, pega-se num romance — e não devia ser assim.
CFA - Ficção «light».
GS - Exactamente. Amanhã pode aparecer um novo Dostoievsky. Afinal, Vargas Llosa acaba de escrever um grande romance «A Festa do Chibo». É um grande romance de ficção política, como o «Nostromo» de Conrad. E Llosa não é um escritor regular, tem altos e baixos e não tem uma obra no sentido clássico, como Proust ou Joyce, mas este livro é magnífico. Cada vez mais a escrita mais perfeita, a mais criativa e inventiva, está em formas não ficcionais. Existe grande escrita de ciência. Hawking e o Big Bang, James Watson e a Double Helix, poderia dar-lhe dez títulos.
CFA - E o português António Damásio, no cérebro.
GS - Certamente. Eles escrevem com um sentido da excitação do mundo. A maioria dos romances tornam o mundo mais entediante do que ele é.
CFA - Mas existe nessas escritas um desejo de ficção, de agarrar a escrita da ciência com os instrumentos da ficção. E muitos deles gostariam de escrever ficção.
GS - E conseguiram? Não. Espero que não vejam nisso uma forma de descontracção, escrever romances não é isso, cuidado! Mas podem vir a existir outras formas.
CFA - O que fez a televisão aos escritores e aos leitores?
GS - Já o disse várias vezes, Shakespeare hoje estaria a escrever para televisão. E fá-lo-ia magnificamente. As energias do dramático, do imediato, estão na televisão, mas é uma forma completamente efémera. Eu posso ler um grande romance 20 vezes e é sempre novo. Um soneto de Góngora duas mil vezes. Veja os grandes filmes que foram feitos, «Une Partie de Campagne», de Renoir, «Les Enfants du Paradis», um ou dois Orson Welles. À quinta vez estão mortos. Não sabemos porquê. Em televisão é mais rápido, passados uns tempos está tudo morto. Resiste apenas pela nossa memória do acontecimento. Nenhuma outra forma linguística é a sua própria obsolescência. Até as grandes formas pictóricas mediáticas se tornam obsoletas.
CFA - Podemos falar da morte da arte?
GS - Não, estamos num grande período para a pintura, a arquitectura. Vou a Bilbao dentro de uns meses. A arte está muito viva. Não a confundam com os «media». Como disse Leopardi, a moda é a mãe da morte. E os «media» vivem pela moda. Mas há grandes talentos aí no meio. A maioria dos dramaturgos tem de escrever para televisão.
CFA - Para sobreviverem.
GS - E para chegarem às pessoas. Às audiências.
CFA - O que é uma audiência, por comparação com um público, com leitores?
GS - Posso responder. Lembra-se quando Karl Marx disse que a quantidade salta para a qualidade? Claro que sim. Pensamos que quando Jesus foi crucificado estavam umas 12 pessoas a olhar. Sabemos que na estreia do «Hamlet» estavam 800, sabemos a capacidade do Teatro Globe. Para a «Missa Solemnis» de Beethoven, 600 ou 700. No dia do Mundial, em 1986, quando a Argentina ganhou, eram mais de dois milhões a assistir. Quando Maradona acelerou para a bola, estavam a bater os corações de mais de dois milhões de pessoas. Não sabemos lidar com isto sociologicamente. Nem compreendemos.
CFA - É a física quântica da sociologia.
GS - É. Inimaginável. Os seres humanos estão a ter as mesmas emoções, riso, lágrimas, através do planeta. Uma criança chinesa está tão excitada como uma criança na Lapónia, ou um esquimó. É uma forma assustadora de controle planetário. Rupert Murdock é dono de três quintos da informação do planeta. Estes são assuntos que nos deviam ocupar como ocuparam Huxley ou Orwell.”
CFA - Quais são os quartos por abrir no novo Castelo de Barba Azul? Onde estão os novos horrores?
GS - No dia em que o controlo deixar de ser não apenas o do gosto e passar a ser político. Agora, podíamos estar noutro lugar que não Lisboa. Podia ser Chicago, Filadélfia... este hotel é totalmente americano. O aeroporto? Totalmente americano. Não se sabe onde se chega, se se tapar os olhos e os desvendar não se sabe onde se está. O planeta torna-se uniforme. Três quintos do planeta falam anglo-americano. Só a língua espanhola resiste, por causa da estatística demográfica e da América Latina. A China não exporta a língua, nunca o fez e nunca o quis. O jornal «Le Monde», o mais arrogante, chauvinista e «distingué», agora tem aos sábados artigos do «The New York Times» em inglês. Porque tem de subsistir. O perigo é a estandardização da vida.
CFA - É a marca do século XX?
GS - Parece que sim. Mas há oposições. André Malraux, um homem inteligente, disse há muito tempo que o século XXII seria o da grande guerra contra o Islão. Grandes guerras religiosas vão mudar muita coisa. Sem o Apocalipse parece que o supermercado será o templo do Homem. Pense nas centenas de milhões de pessoas que nunca tiveram um luxo, boa comida, viagens. Existe uma pequeníssima elite privilegiada à qual pertenço que tem viajado, ficado nestes hotéis, e existem os outros, os que eu vejo agora no aeroporto de Londres e que nunca saíram da Inglaterra e que de repente descobriram a luz do sol. As classes baixas não sabiam que se podia estar quente numa praia até aparecer o pacote turístico. Saint-Just já tinha dito, antes de morrer na guilhotina, a felicidade é uma ideia nova na Europa. Qual o preço da alta cultura? Tem sido esse o meu trabalho nos últimos 50 anos.
CFA - Existe uma consciência europeia? Ou morreu, como morreu uma ideia da Europa como Mitteleuropa — antes da construção artificial do Mercado Comum — após a II Guerra Mundial?
GS - Morreu na II Guerra Mundial e morreu no Kosovo. Não existe consciência europeia. E ninguém na Europa compreende o desprezo americano pela Europa. Há pouco tempo dei na América as Harvard Lectures e, lá, as pessoas são educadas até tomarem dois «whiskies». A seguir dizem a verdade: «Se nem conseguiram tomar conta do Kosovo vão para o inferno! A Europa e os vossos ódios não nos interessam.» A matança no País Basco, na Irlanda. 50 anos depois de Auschwitz, os massacres nos Balcãs.
CFA - Em Bruxelas estão muito contentes por já não existirem guerras na Europa.
GS - São uma anedota, completamente corruptos, funcionários de terceira. Tive o privilégio de ensinar nas melhores universidades, tive estudantes que vão para os «media», lei, economia. Não tive um único bom estudante que se tornasse alguém em Bruxelas. É um fedor de corrupção e mediocridade. Gandhi, quando lhe perguntaram se não achava importante a civilização europeia, disse «foi uma ideia maravilhosa».
CFA - A Europa transportou-se para a América após a guerra. O espírito da Europa apanhou o barco e atravessou o Atlântico. Creio que também já escreveu isso nalgum lado.
GS - Talvez a grande cidade europeia seja Nova Iorque, com 20 línguas e 10 grandes universidades. Talvez a energia e o génio venham daí. Mas, 50 anos depois dos nazis, que tenhamos movimentos neofascistas activos na Europa... é incrível. Talvez estejamos demasiado cansados, tivemos demasiada história.
CFA - Somos demasiado velhos.
GS - Não sabemos se a noção de idade se aplica a um colectivo. Na fisiologia dizem-nos que os músculos ficam rígidos e quando isso acontece lançam ácido no sangue, envenenam o sangue. Talvez. Ou talvez as mulheres comecem a mudar as coisas na Europa. Quem senão elas? E começam a ter finalmente carreiras importantes. Tivemos Mrs. Thatcher, que foi o político mais poderoso em Inglaterra desde o tempo de Isabel I.
CFA - Ela foi acusada de se comportar como um homem.
GS - Disparate total.
CFA - Concorda com o anti-europeísmo dela?
GS - A Inglaterra foi salva diversas vezes por 20 milhas de água. Não o esqueçamos. Uma tradição parlamentar, e de «common law», e de polícias que não estão armados. E porque o deveriam estar? Não precisamos dos polícias armados da França, dos tribunais de Bruxelas ou do Banco Central Alemão, salvo seja. O problema da Inglaterra foi o de aprender a tornar-se pequena depois de ter sido grande. É preciso sorte e sensatez. Portugal teve o mesmo problema. Era preciso ter um Nelson Mandela como primeiro-ministro.
CFA - E África, o continente que está a morrer?
GS - Não podemos fazer muito. Com o dinheiro que lhes damos eles compram armas, e os maiores criminosos de guerra desde Hitler são os vendedores de armas, os países que as vendem. A sida é incontrolável. Para variar, o Nobel premiou um grande escritor, o sr. Naipaul, que disse a verdade sobre África e foi odiado por isso. Nem nos nossos países ocidentais conseguimos resolver o problema dos imigrantes, de que precisamos desesperadamente e que mantemos de fora. Eu sou um judeu, sei o que significa fugir. Estamos numa situação esquizofrénica. Grandes crises esperam a Europa.
CFA - A falência do modelo marxista contribuiu para isso?
GS - A América Latina está, de certo modo, no início de um novo marxismo. Na Argentina, os armazéns têm mais carne que qualquer outro país no mundo e as pessoas estão a passar fome. Foi o que Marx previu. O capítulo não fechou, por causa da exploração dos pobres. O México, que eu adoro, tem tanta pobreza, tanto desespero, tanta criança a definhar e morrer. E os outros, a Venezuela, por aí fora.
CFA - O castrismo falhou. Esteve quase lá.
GS - Cuba criou um sistema de saúde e de educação que são a inveja dos outros países da região, mas a um preço terrível, censura, estupidez. Por outro lado, o sr. Bush prossegue a sua política idiota contra Cuba porque o seu irmão precisa dos votos dos exilados cubanos em Miami.
CFA - Os políticos de hoje, os senhores do mundo, não leram livros, são incultos. Churchill, de Gaulle, Mitterrand e outros, liam livros.
GS - Willy Brandt... homens de Estado com grande cultura. Todos mortos, e alguns foram assassinados. Se Rabin e Sadat fossem vivos... dois homens com visão de paz assassinados pelo seu povo. Estamos a falar de coisas sérias, e quem me dera que grandes escritores nos ajudassem mais. Mas Clinton lia muito, e sabia do que falava.
Sei-o por experiência própria, ele discutiu comigo taco a taco, sem hesitações, depois de um jantar para o qual me convidou. Uma inteligência portentosa.
CFA - É um dos últimos sábios herdeiros da grande tradição europeia, um pensador, um professor, um crítico e um escritor. É um espécime raro pela lucidez e a humanidade. Como é que carrega este manto?
GS - Sou acima de tudo um professor. Sou um professor de professores. Tenho estudantes que agora são professores por esse mundo fora. Tenho uma família de estudantes que são a melhor família que se pode ter. Tenho muitos livros traduzidos em muitas línguas e tenho muita sorte, não me esqueço disso.
CFA - Voltará a haver, entre eles, um novo George Steiner?
GS - Comecemos por ter certezas sobre o velho George Steiner. Pushkin, que era um aristocrata, um príncipe, disse muito «obrigado aos meus tradutores, aos professores que falam sobre mim. Eles levam as cartas, são o ‘postino’, o carteiro, eu escrevo-as». E eu toda a minha vida soube desta diferença. Quando me levanto de manhã digo para mim, Pushkin escreve a carta e eu tenho muita sorte em levá-la ao destino. É uma maravilhosa profissão e uma maravilhosa vocação.
CFA - E a sua ficção, não a reconhece?
GS - Deus sabe que não me compete a mim julgá-la.
CFA - Não seria demasiado severo para consigo mesmo?
GS - Eu sei onde está a verdadeira grandeza, sei onde está o festim em que se sacrifica o chibo, mas outros julgarão isso.
CFA - Existe grandeza na grande inteligência e na humanidade dessa inteligência.
GS - O mundo universitário está doente, doente com convencimento e vaidade. Qual é a minha querela com o homem de génio — e Derrida é um homem de génio e eu não sou — qual é a minha querela? A palavra dele: pré-texto. Nenhum texto é, para mim, pré-texto. O senhor Cervantes, e Shakespeare, e Góngora, não precisam do pobre e pequeno senhor Steiner, ele é que precisa deles, terrivelmente. Por isso, quando o «monsieur» Derrida usa a palavra pré-texto, dizendo que qualquer obra de literatura está à espera de ser desconstruída, eu respondo, o diabo é que está. É um desacordo muito fundo, e é um desacordo moral.
CFA - Sempre defendeu o velho criticismo, o criticismo clássico, que não se coloca à frente da literatura nem pretende descodificá-la.
GS - Todo o criticismo é secundário. Walter Benjamin disse que algures numa biblioteca existe um livro que ninguém tirou da prateleira e leu, e pode esperar outros duzentos anos até que alguém o descubra e leia. E nesse dia o livro poderá mudar a literatura. O livro pode esperar duzentos anos. Quando morreu, Kakfa tinha publicado duas ou três historietas e três ou quatro esboços, hoje existem 114 línguas que têm Kafka como adjectivo, incluindo o japonês.
CFA - Você também já é um adjectivo.
GS - Não posso falar disso. Mas pense nos que escrevem e que caminham para o silêncio e a derrota sem se saber, até que um dia alguém pega no livro e ele começa a arder. E não se pode fazer isso com televisão, com filmes...
CFA - Ou com o que está dentro ou é criado por um computador.
GS - Nunca! Pode fazer-se isto com uma pintura, uma composição musical, um edifício...
CFA - Já que falamos de televisão, a CNN dava notícia há pouco tempo da necessidade de legislar no caso de crianças virtuais, imagens computorizadas de crianças, para efeitos pornográficos. Será a criação desta pornografia infantil um crime, mesmo sem existência de corpos reais? Este tema não lhe será estranho porque já no seu livro In Bluebeard’s Castle antecipava estes problemas.
GS - Números publicados pela Scotland Yard: o dinheiro ganho na pornografia é, neste momento, superior ao dinheiro ganho nas drogas. Pornografia é número um. Teremos crianças virtuais, coprofilia virtual, sadismo virtual. Estamos muito doentes.
CFA - A morte do humano, uma humanidade moribunda?
GS - Isso foi Auschwitz, peço perdão, isso aconteceu em Auschwitz. Estamos a viver postumamente. Em todas as vidas existe um dia que muda todas as coisas. Você ainda é demasiado jovem mas esse dia há-de chegar. Para mim, chegou quando eu percebi que o sr. Pol Pot no Camboja tinha enterrado vivos cem mil homens, mulheres e crianças.
Eu aceito que sobre Auschwitz muito pouca gente sabia, embora Elie Wiesel diga que se sabia, mas eu acho que muito poucos sabiam. As notícias sobre Pol Pot estavam em todas as televisões, chamavam-se os «killing fields». E nada fizemos!
CFA - Também nada fizemos no Ruanda.
GS - Nada fizemos, e vendemos mais armas ao Khmer Rouge. Os franceses e os britânicos continuaram, e eu investiguei isto, a vender armas. Para mim, este foi o ponto em que, ao olhar-me de manhã ao espelho, disse para mim mesmo: não estou realmente a olhar para um ser humano. Eu nada fiz. Não gritei, não saltei do telhado, não corri para o Camboja.
CFA - Uma ausência de Deus na nossa civilização.
GS - Isso foi há muito tempo. Há uma ausência do Homem, o que é muito sério.
CFA - E no entanto nunca tivemos tantas tribos lutando em nome de Deus, reclamando um Deus único e verdadeiro. O fundamentalismo religioso, e não falo apenas do islâmico, argumenta com armas e com guerra a favor da presença de Deus.
GS - Não conheço a resposta, mas lutar em nome de Deus, em vez de lutar em nome da Ford Motor Company, ou da Vodafone, ou da Shell Oil, não sei o que é pior. Tenho pena, mas talvez haja mais dignidade em lutar em nome de Deus.
CFA - Crê que os israelitas, com esta operação de Ariel Sharon contra os palestinianos, perderam a autoridade moral que tinham? Talvez pela primeira vez?
GS - Israel decerto perdeu o respeito por si próprio. O que o torna muito perigoso. Quando se perde o respeito por si próprio é um grande perigo. A coisa extraordinária é que existe um número de pessoas muito corajosas, escritores como Amos Elon, Amos Oz, que ainda dizem corajosamente: Não! Com grande risco, grande risco.
CFA - Amos Elon é muito lúcido, perfeitamente lúcido num dilema sem lucidez. Mas estes novos barbarismos, estes Bin Laden, onde os arrumamos?
GS - Sempre tivemos barbarismos, os vândalos e os hunos nunca foram embora. Átila matou um milhão de pessoas quando invadiu. A diferença é que agora a televisão, os «media», dão-nos conta disso imediatamente. Tornou-se realidade virtual, e habituámo-nos completamente a isso, não chegamos a acreditar na realidade, ela transformou-se na pornografia do inevitável.
CFA - É o mesmo que quando diz que temos Maradona a correr com a bola e dois milhões de pessoas a olhar para ele ao mesmo tempo.
GS - Agora, temos os olhos neste Mundial.
CFA - Onde estava no 11 de Setembro?
GS - A fazer alpinismo.
CFA - Ainda faz alpinismo?
GS - Subo colinas, ando em vez de escalar. Nas colinas. Tenho 73 anos.
CFA - Ainda joga xadrez?
GS - Mais do que nunca.
CFA - E ainda ouve música.
GS - Mais do que nunca.
CFA - À parte ler e escrever, retira da vida muito prazer.
GS - Quando me levanto de manhã, digo «obrigado». Há duas espécies de seres humanos, os que dizem «obrigado» e os que dizem «que se dane». Eu sou dos primeiros, os que dizem «obrigado», sempre fui. Lembro-me que sobrevivi com a minha família em 1940, por milagre, fomos levados para segurança por milagre. Tive uma vida muito gratificante. Tinha esperanças de ser um grande escritor, que não sou, esperava ser um artista, não sou, tinha esperanças de ter sido. Não fui. Mas tive dois ou três momentos na vida em que levei a carta, fui o «postino», e fiz uma grande diferença. Lembro-me do dia em que disse ao «Times Literary Supplement» que ia escrever um grande artigo sobre um escritor e eles me perguntaram como é que se escreve Celan, Paul Celan? C, E, L, A, N? Foi o primeiro artigo sobre ele em inglês e fiquei muito feliz de o fazer. E fiz isso por um certo número de grandes escritores, levei a carta para o marco do correio certo. Isto foi um grande privilégio, que é o do grande executante de música. Sem os que a tocam, não teríamos a grande música que foi composta.
CFA - O que é para si um grande escritor?
GS - O que se sabe a partir da primeira frase do livro. O verdadeiro criticismo é uma dívida de amor, o contrário da desconstrução, do pós-modernismo. Essa primeira sentença é o programa da minha vida.
CFA - Ainda temos esses grande escritores de que fala? Os maiores? O Broch, Proust, Joyce, Musil, Mann? Ou acabaram com o século XX?
GS - Ainda temos gigantes. É difícil julgar a contemporaneidade. Soljenitsine foi um gigante em dois ou três livros e foi um homem muito perigoso noutros. E ainda existem grandes poetas. Borges ainda está aqui. Não concebo um mundo sem Borges. Mas gostaria de voltar a falar das mulheres. Porque é que as mulheres continuam a ter filhos se sabem que eles morrerão na guerra e no massacre? Em muitas partes do mundo, deviam dizer não ao homem. Eu não quero ter um filho que será morto no Kosovo, no Ruanda. É uma questão de Aristófanes na peça «Lisístrata», quando as mulheres dizem «não, nós paramos a guerra por deixarmos de fabricar soldados». É uma das cenas. Se eu fosse um grande escritor dizia-lhe que romance gostaria de escrever. Um homem num regime despótico, qualquer regime despótico, com polícia secreta. Esse homem chega a casa ao fim da tarde vindo do trabalho. A mulher consegue cheirar o seu trabalho. Eu sei que isso é verdade. A tortura deixa um cheiro. Se um homem tortura, ele cheira, mesmo que se lave. Esse homem chega a casa com o seu cheiro e vai para a cama com a mulher. Como é que ela consegue? Como é que ela consegue? Gostaria de começar um romance aqui, e esse romance precisaria de um grande escritor. O número de mulheres que vivem com homens que estão a fazer coisas bestiais, já reparou? Esta entrevista está muito negra, demasiado negra. Vamos por um momento para um registo mais leve. Na cidade de Londres, agora, existem homens de negócios que eu conheço que fecham indústrias que deixam no desemprego mais de cinco mil pessoas. De um dia para o outro, atenção! E recebem em troca um milhão, dois milhões, chama-se a isso «share options», «golden handshake». Será que as mulheres deles, quando eles entram pela porta dentro, lhes dizem «Seu porco»? «Filho da mãe»? E se não o dizem, porque não?
CFA - Talvez porque estão demasiado entretidas a gastar os proveitos desse horror numa loja Gucci?
GS - Você ainda é mais cínica do que eu. Mas vê a minha questão. Elas não gritam, não protestam. Não dizem «Como é que você pode?»
CFA - As mulheres endureceram, tiveram de endurecer. Ficaram duras.
GS - Ou indiferentes.
CFA - Ou corruptas.
GS - Ou corruptas.
CFA - Havia uma tradição de grandes mulheres escritoras com consciência e que sofreram demasiado por causa disso. A Akhmatova, por exemplo. Já não me importava de ter uma nova Virginia Woolf.
GS - Acho a Margaret Atwood uma escritora poderosa, não desses génios, mas poderosa. Existe um enorme vácuo. Um vácuo onde não se ouve a voz das mulheres.
CFA - Mas existe a «shopping novel». Sabe o que é? «Shop until you drop».
GS - Não torne as coisas piores.
CFA - Existe um poema da Akhmatova em que ela diz que só o sangue cheira como o sangue. Como é o cheiro da tortura?
GS - É diferente, diferente do cheiro do soldado que chega da batalha.
CFA - Conseguiria descrever esse cheiro?
GS - Acho que sim, é como couro morno. Talvez por influência de um cheiro que nunca esqueci, o cheiro quente da máscara de clorofórmio da operação à garganta na minha infância.

Entrevista de Clara Ferreira Alves publicada no jornal Expresso em 22-06-2002 (fonte)