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Henry Rousso (2009)

Tempo e Argumento - O que é a História do Tempo Presente?

Henry Rousso – Para essa questão existem duas respostas. A primeira, uma resposta que se inscreve no contexto francês. Essa denominação está associada à criação deste instituto: o Instituto de História do Tempo Presente (IHTP) foi criado entre 1978 e 1980 e tinha por objetivo trabalhar sobre o passado próximo e sobre a História Contemporânea no sentido etimológico do termo, ou seja, uma História (...) na qual o historiador investiga um tempo que é o seu próprio tempo com testemunhas vivas e com uma memória que pode ser a sua. A partir de uma compreensão sobre uma época que não é simplesmente a compreensão de um passado distante, mas uma compreensão que vem de uma experiência da qual ele participa como todos os outros indivíduos. Essa é a definição etimológica de História Contemporânea e não há nada de original. Contudo, na França, a expressão “História Contemporânea” possui outra significação, pois ela se desenvolveu como segmento da disciplina histórica e da historiografia. No último terço do século XIX, nós consideramos que a data inaugural da História Contemporânea foi a Revolução Francesa. Portanto, ainda hoje, aqui na França no programa escolar/universitário a História Moderna termina com Luis XVI, o último grande rei, e a época contemporânea, a nossa, começa com a Revolução Francesa, em 1789. Na França quando você afirma que é um historiador do contemporâneo isso pode abranger todo o século XIX e XX. Não há nenhuma ambigüidade nisso. Contudo, esse fato nos coloca evidentemente vários problemas, pois nós transformamos a noção de História Contemporânea. Assim, a palavra “contemporâneo” não teria mais significações e seria simplesmente um recorte temporal, uma forma de abordar o tempo. Entretanto a palavra “contemporâneo” significa “ao mesmo tempo, o tempo com” e isso designa certa percepção ideológica da História. Quando eu afirmo ideológica não é necessariamente política, mas se baseia em uma idéia simples, pois a civilização, o universo espaço-tempo no qual nós vivemos na França (na Europa) nasceu com a Revolução Francesa. Evidentemente essa afirmação não é falsa, mas também não é verdade. São a partir dessas constatações que no fim dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, há todo um movimento na França e em muitos outros países europeus, para lançar e relançar o estudo da História Contemporânea (...). E esse é outro ponto bastante importante para compreender a emergência da História do Tempo Presente, pois nessa época, produzir História Contemporânea era considerado algo suspeito. Eu, quando iniciei meus estudos, quando comecei a trabalhar como pesquisador, na metade da década de 1970, afirmei: ─ “eu quero fazer História contemporânea e quero trabalhar o período de Vichy”(1). Afirmaram então que eu era duplamente louco. Primeiro, por investigar o período de Vichy e, segundo, porque o estudo da História Contemporânea não tinha nenhum futuro. “Se você quiser ser um grande historiador é preciso estudar a História Medieval ou a História Moderna...”.

Tempo e Argumento – ...estava na moda...

Henry Rousso - Sim, estava na moda e os grandes historiadores da época, Fernand Braudel, Pierre Chaunu, Emmanuel Le Roy Ladurie, Georges Duby, eram medievalistas ou estudavam o período moderno. Havia muito poucos grandes historiadores (franceses) do contemporâneo. O único que surgiu foi René Rémond, mas por razões que não foram somente científicas. Então, a escolha do termo História do Tempo Presente foi simplesmente para se destacar do termo História Contemporânea que, na França, possui outra significação. Neste mesmo momento foi criado o Instituto de História Moderna e Contemporânea, dedicada ao período entre os séculos XVI e XX. Para mim sempre esteve claro que queríamos aprofundar (os estudos) sobre o período compreendido entre a Segunda Guerra Mundial aos nossos dias, no caso, até os anos de 1980. E a segunda razão, o IHTP é oriundo de outra instituição que havia sido criada após a Segunda Guerra, que se chamava Comitê de História da Segunda Guerra Mundial. Este era um centro de pesquisa particular, consagrado exclusivamente para tal. E nós consideramos que este seria um ótimo ponto de partida para lançar um instituto que iria se dedicar à História Contemporânea, sobretudo, a investigar a Segunda Guerra Mundial e as décadas posteriores. De fato, nós antecipamos a tese recente de um historiador, Tony Judd, que publicou uma história da Europa desde 1945, intitulada de História do Pós-guerra. Como se a história da Europa até a queda do Muro de Berlin não fosse o pós-guerra. Sendo assim o acontecimento maior do século XX seria a Segunda Guerra Mundial e o que acontece após a mesma uma sequencia, uma sequela, etc. Portanto, a primeira razão para se distinguir a (História do Tempo Presente) da História Contemporânea foi uma motivação técnica e semântica, pois queríamos mostrar “outra coisa” (...). Na segunda razão há também uma dimensão ideológica. Ideológica no sentido que não é qualquer História que será feita a partir dos anos 1980 e o IHTP, assim como todos que trabalharam com o tempo presente, buscou objetos particulares.

Tempo e Argumento – No Brasil, como forma de divisão temporal da História, o modelo seguido no ensino é também esse de uma História Contemporânea que começa com a Revolução Francesa.

Henry Rousso – Sem dúvida, vocês foram influenciados pelo movimento francês, mas é necessário dizer que nós encontramos essa mesma abordagem em outros países europeus. Contudo, existem países europeus que possuem recortes temporais totalmente diferentes. Na Alemanha, por exemplo, existe todo um debate anterior ao da França sobre o que é a História Contemporânea, sua relação com o tempo presente e a uma história próxima. Inclusive fomos buscar o termo “tempo presente” em uma tradução do alemão. Para os historiadores alemães, o verdadeiro debate era determinar qual foi o ponto de partida dessa história recente. Seria 1917 ou seria 1945? Para uma parte da historiografia alemã, sobretudo, essa do pós-guerra, a Revolução Bolchevique é uma questão importante. Todavia estes discutem se a queda do Nazismo em 1945 não é uma questão ainda mais importante do que 1917. Eu cito um terceiro caso, os Estados Unidos e o mundo anglo-saxão em geral. Para estes, História Contemporânea é, a grosso modo, a história próxima. Até onde eu saiba, há muito pouco debate epistemológico sobre o que isso significa, quando esta começou, qual é a data mais apropriada, etc. Há um tipo de pragmatismo na abordagem da História que faz a História Contemporânea ser entendida, a grosso modo, como um século, o século XX. Entendo que nos Estados Unidos os historiadores consideram estranho atribuir o início da História Contemporânea para a Declaração de Independência, em 1776. Mas aquilo que mais me chocou nos Estados Unidos em relação ao caso francês ou alemão (...) é que nestes dois países existe um grande debate político, científico e cultural sobre o ponto de partida da História Contemporânea. Nos Estados Unidos isto não constitui uma questão maior. Claro que existem outras questões, mas eu entendo que é um fenômeno associado a certa maneira de abordar a História. Eu compreendo que, no caso do Brasil e da América Latina em geral, esta abordagem é mais próxima do modelo europeu por razões evidentes e, inclusive, como uma maneira de rejeitar o modelo norte-americano. Nesse exato momento, aqui no IHTP, estamos em via de organizar um seminário internacional em torno dessa questão. Vamos perguntar aos historiadores norte-americanos que iremos convidar por que não há debate sobre esta questão nos Estados Unidos? O que é a História Contemporânea? Quando esta começa? Quais as questões subjacentes neste debate? História Contemporânea é somente história próxima?

Tempo e Argumento – A História do Tempo Presente é uma nova área de investigação da disciplina História?

Henry Rousso – No domínio da historiografia, mais uma vez eu reafirmo, nós falamos do caso da França. Mas isso que é verdade na França é relativamente verdade para a Europa. A resposta a essa questão traz novamente distintos nuances, pois, no início dos anos de 1980, era sim uma nova área de investigação. Ou seja, se nós olharmos o programa universitário e a pesquisa histórica, as grandes linhas, as grandes obras, os grandes historiadores, as grandes revistas estão “situadas”, sobretudo, nas áreas da História Antiga, da História Medieval e da História Moderna. Conforme afirmei anteriormente, ser um grande historiador, nessa época, significava ser um grande historiador medievalista ou modernista, isto é, alguém que vai investigar um tempo que desapareceu. Quando escutávamos na televisão Georges Duby falando do “tempo das catedrais” via-se que era outro mundo, em suma, era algo distante. Estávamos estudando a alteridade, não reconhecendo nossas origens, mas as observamos de muito longe. Já em relação à História Contemporânea me alertavam para ficar atento a uma “armadilha”. Conforme se afirmava na época, a História do Tempo Presente, no sentido etimológico da palavra é, na melhor das hipóteses, pertencente ao domínio das Ciências Políticas, ou na pior, ao Jornalismo, mas não da História. Esta é uma posição que não é exatamente nova, pois remonta à formalização ocorrida, no século XIX, na França e na Alemanha, no momento em que se forjou a metodologia da pesquisa histórica moderna.

Tempo e Argumento – Esse alerta remontava às raízes da História, enquanto disciplina?

Henry Rousso – Exato. Naquele momento era vigente a concepção de que a História poderia ser uma ciência rigorosa, fundada sobre documentos, fundada sobre traços tangíveis, fundada sobre métodos, fundada sobre o exame de textos e sobre o cruzamento de fontes documentais. Enfim, foi o momento em que a História se tornou uma profissão, no fim do XIX. Portanto, a História Contemporânea parece suspeita, porque é muito próxima, porque é muito sensível, porque lhe falta uma distância. O paradoxo é que a História, não como disciplina científica, mas como “olhar” sobre o mundo, nasceu com os gregos Tucídides e Heródoto, a partir de análises, a priori, da História Contemporânea deles e da História da guerra. Isso me fascina! O primeiro objeto da História foi uma guerra em um tempo presente, a Guerra do Peloponeso. Eu compreendo que sempre existiu uma tensão no trabalho dos historiadores de todas as épocas em relação à concepção de que não se pode investigar sobre o período contemporâneo, pois não se poderia compreender um processo que é inacabado. Essa foi a concepção pela qual, nós, e eu pessoalmente, muito nos “batemos”. Mas é verdade! Pois quando trabalhávamos sobre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1980, discutíamos sobre um processo (a URSS e o comunismo) que achávamos que duraria mil anos. Ninguém imaginava, em 1980, que o sistema soviético cairia nove anos mais tarde, praticamente sem guerra. Ok, mas a resposta foi bastante simples. Os historiadores não tinham nada a dizer sobre as questões da atualidade e iríamos “abandonar” todas (as análises) aos jornalistas e à ciência política? Não, isso é ridículo! Nós fazemos uma história inacabada. Nós fazemos uma história do inacabado. Nós assumimos o fato de que as análises que vamos produzir sobre o tempo contemporâneo, provavelmente, terão certa duração e que os acontecimentos vindouros podem mudá-las. Quando ocorreu a queda do muro de Berlim, evidentemente, alterou-se a História Contemporânea. Isso é uma evidência. Este fato mudou o “olhar” sobre a História Contemporânea produzida antes de 1989, pois o sistema soviético era mortal e o comunismo era uma ideologia datada. A Primeira Guerra Mundial teve um efeito tão ou mais importante que a Segunda Guerra Mundial, mas ninguém havia pensado até então. Somente após 1989 começamos a refletir sobre a que ponto a Primeira Guerra Mundial foi realmente importante.

Tempo e Argumento - E que também mantinha estrita relação com o que ocorreu na Segunda Guerra...

Henry Rousso – Exatamente. Isto faz parte de atividades que desenvolvemos aqui no IHTP. Portanto, em 1980, a ideia foi reposicionar no espaço científico uma visão de História Contemporânea. A grande surpresa, pois estávamos em 1980 e não sabíamos se isso daria certo: nessa época havia muito poucos estudantes de História Contemporânea, mas em 10 anos, 15 anos, 20 anos, 30 anos mais tarde, estes são mais da metade dos historiadores. Se observarmos atualmente um Departamento de História de uma universidade, verificaremos que o número de estudantes que pesquisam o período contemporâneo, considerando os séculos XIX e XX, é largamente superior aos demais. A História Medieval está em crise e a História Antiga também. O que é uma pena. Todo mundo quer produzir História Contemporânea. Nós conhecemos um crescimento incrível. Eu tive a sorte de administrar esta instituição no momento em que houve muitos debates. A profissão que eu exercia nos anos de 1980 e de 1990 não era nada daquilo que eu havia pensado durante a execução dos meus estudos. Com certeza existem outras questões. Nós fomos apropriados pelo debate público. A figura do historiador contemporâneo consagrou-se na França. Alguns anos antes, o que víamos na televisão era Georges Duby e Emmanuel Le Roy Ladurie, que falavam sobre um tempo com um grande recuo. Nos anos de 1990, víamos historiadores que falavam do nazismo, de Vichy, da guerra, da memória, enfim, que falavam do século XX. O que nos rendeu várias cenas de ciúme, de ataque, etc. Esse foi um fenômeno novo, não há dúvida.

Tempo e Argumento - Quais são os principais temas pesquisados pelos historiadores do Tempo Presente na França?

Henry Rousso – É difícil responder de uma maneira precisa. Mas posso afirmar que os historiadores do contemporâneo trabalham sobre as mesmas temáticas que seus colegas que pesquisam História Moderna, pois aborda-se o Tempo, a História Social, a História Econômica, a História Política, etc. Na França esta historiografia possui algumas características. Primeiro, a História Contemporânea foi dominada por certa concepção de História Política que eu qualificaria de tradicional, isto é, marcada por estudos dos acontecimentos políticos até os anos 1990. Depois, esta história dos acontecimentos do político sofreu uma lenta mudança para uma história da sensibilidade política e da cultura política. O que alguns chamaram uma História Social da Política. Mas a História Política no sentido de história das relações de força, história dos partidos políticos, é um dos domínios mais investigados pela História Contemporânea. Contudo, em grande medida, sem ligação com a abordagem da Ciência Política, o que entendo ser um grande defeito da historiografia francesa. Eu afirmo isso, pois publiquei um livro com um colega politólogo justamente sobre esta questão da transdisciplinaridade. Para mim, este é um grande ponto fraco dos historiadores na França. Outro domínio que eu conheço bem é tudo que emana da história das guerras, de sistemas totalitários e de guerras civis. Mas outra marca da História do Tempo Presente, evidentemente, esta que nós praticamos aqui no IHTP, mas também em outros lugares, é o foco sobre uma história do trágico, história do paroxismo, ou seja, da violência extrema, de sistemas políticos desconhecidos. Hannah Arendt ─ e eu posso não concordar com tudo que esta autora preconiza sobre o totalitarismo ─ tem razão fundamentalmente em, ao menos, um aspecto. É que o nazismo, o fascismo e o comunismo são sistemas que jamais existiram anteriormente na História. Mesmo se existem tradições e genealogias possíveis, o fascismo e o nazismo são sistemas não possuem equivalentes na História. Estes “aparecem” no início do XX e são totalmente novos. O comunismo idem. Houve um grande investimento dos historiadores do Tempo Presente na França, na Alemanha e na Itália, assim como em muitos países europeus, para buscar respostas sobre as guerras, os sistemas totalitários e as grandes “fraturas” do século XX. Podemos perguntar porquê? Isso que eu chamo a nova História Contemporânea. A História do Tempo Presente encontrou novos fenômenos sociais que considero extremamente importantes, sendo que o principal foi a questão da memória. A noção de memória coletiva teorizada por Maurice Halbwachs nos anos de 1930, não figurava na aprendizagem de um historiador francês da década de 1970. Não líamos Halbwachs. Ele não fez parte dos autores que eu li. A noção de memória coletiva fora reduzida, a grosso modo, à questão dos testemunhos. Então começam a aparecer fenômenos na sociedade francesa e em outras partes: as lembranças da Shoah (2), as lembranças da guerra, o debate público sobre a tomada de consciência acerca da colaboração com os nazistas. Esse é um fenômeno relativamente novo e os historiadores foram confrontados com toda força sobre tal domínio. Se eu pego meu caso pessoal. Eu comecei a trabalhar, em 1975, na minha dissertação de mestrado sobre o período de Vichy. A abordagem era a da História Econômica, que era a boa História, a verdadeira História, onde havia dados, números e arquivos. Em seguida, cinco ou seis anos depois, eu me “lancei” numa grande tese que nunca terminei. Eu percebi que no espaço público havia ainda um debate sobre a inculpação dos antigos colaboradores com os nazistas, etc. Eu me dei conta que este período não estava morto. E que, ao contrário, a memória dos anos da Segunda Guerra Mundial estava viva entre os franceses, e a do nazismo, na memória dos alemães, e a do fascismo, na memória dos italianos. Hoje nós vemos que a maior parte dos países é confrontada com fenômenos sociais desse tipo, que questionam a sua própria História. O Brasil eu conheço menos. Mas eu vi estas mesmas questões adaptadas à sociedade chilena. Enfim, esse é um fenômeno que eu vi aparecer. Eu o dato como historiador no fim dos anos de 1970. Isto corresponde ao fim de um modelo de crescimento e de certa percepção do mundo que é voltada para o futuro. Portanto, há toda uma interrogação sobre um passado que retorna, notadamente, das gerações que nasceram após a guerra e que, a grosso modo, perguntam: será que o modelo ocidental é unicamente o crescimento, a democracia e os direitos humanos? Será que o século XX é o século que nos trouxe o progresso em relação aos séculos anteriores? Esse mesmo tipo de debate podemos conduzir para discutir a Idade Média. Contudo, o século XX que narramos hoje é muito diferente do século XX que descrevíamos na década de 1960. Podemos tomar o título de um livro sobre a História da Europa do século XX escrito por um historiador norte-americano. Este intitula a obra como “The dark continent”, isto é, o continente das trevas. Não importa quem tenha razão. Se o século XX foi o século da democracia e do progresso ou o século das trevas. O importante é que a nova História Contemporânea, a História do Tempo Presente, muito se alimentou dessa história do trágico. A história do período trágico e a história de sua memória. O que está acontecendo na Espanha é exatamente a mesma coisa. A diferença é que, ao invés de Segunda Guerra Mundial, é a Guerra Civil. Ou seja, é o mesmo fenômeno. É isso que eu chamava uma “História que não passa”, um passado que não passa, que é sempre presente. Esta concepção de que o passado permanece sempre presente nos apresenta um grande debate, que traz discussão e polêmica, pois é um regime de historicização novo. Não há muitos casos na História, no passado, onde se produziu dessa maneira. Entendo que a prática dos historiadores do Tempo Presente não pode ser compreendida fora desse contexto. Não é simplesmente uma maneira de escrever a História Contemporânea, é um pouco mais que isso. Há reconstruções, há o reconhecimento de determinados contextos. Por exemplo, nós travamos um debate com o historiador François Hartog, quando este publicou seu livro sobre os regimes de historicidade, especificamente sobre o presentismo. Nos acusou, mas de modo gentil, ao afirmar que o que fazem os historiadores do Tempo Presente é o equivalente a presentismo, pois não veriam outra forma de compreender o passado senão a partir do presente. Mas não é nada disso. Ao contrário, nós somos uma forma de reação ao presentismo. O que afirmamos é que não somente a História deve ser levada em conta na análise do mundo. (...) Não sei se conseguimos, mas o objetivo é ser capaz de produzir a História do nosso próprio tempo, tentando obter uma reflexão que permita um recuo relativo. Todavia, afirmavam: você não pode fazer uma História do Tempo Presente porque ela é muito próxima e muito polêmica; ok, é verdade! Vichy é muito polêmico. Quando eu comecei a pesquisar tive reuniões com os antigos ministros de Vichy. Eu os questionava, tomávamos um café e ponto final. Vou lhe contar um fato curioso. Uma vez eu convidei um antigo nazista para vir até minha casa, em função de uma entrevista para um filme, um antigo militar da SS francesa (...). Eu o convidei, pois não sabíamos onde rodar o filme e a solução foi a minha casa. Um senhor gentil que tinha 65 anos. Ofereci-lhe café, discutimos e ele explicou-me tranquilamente que era nazista. Ok, eu era um historiador e não havia problema. Mas, houve um o momento em que afirmou que as câmeras de gás não existiram. Eu então lhe disse: ─ meu senhor, retire-se daqui. São situações que nós somos confrontados quando somos historiadores do Tempo Presente. Portanto, o recuo funcionou durante uma hora. Eu tinha 25 anos na época. Não foi fácil, mas eu estava com alguém que contava sobre a guerra até o segundo que tive um clic. Eu me dei conta que estava diante de um safado que não pode continuar na minha casa e ponto final. Mas se fosse hoje, não faria isso, não o mandaria embora. Após trinta anos de profissão, (...) eu o faria falar. É isso pra mim a História do Tempo Presente. É um manter-se à distância face ao próprio presente, uma tarefa dura.

Tempo e Argumento - Quais os principais referenciais teórico-metodológicos utilizados pelos historiadores do Tempo Presente?

Henry Rousso – Essa é uma questão pela qual eu não tenho muito a dizer. Francamente, como referências teóricas, eu diria que nós tentamos forjar as nossas ferramentas teóricas. Agora, quais são os autores e a que se remetem, ao que me concerne, eu citaria, por exemplo, Maurice Halbwachs e Paul Ricoeur. Paul Ricoeur foi uma referência teórica. Ele nos acompanhou, ou seja, ele “descobriu” essas questões, ao mesmo tempo, que todo mundo. Nós descobrimos todos ao mesmo tempo. As questões sobre a memória estão em um dos seus último livros. O que afirmou sobre os historiadores, muito me impressionou. Paul Ricoeur veio várias vezes aqui. Nós tínhamos algumas relações com ele. Paul Ricoeur tentou sim compreender o “mal” no sentido filosófico, pois essa era uma das questões que nos colocávamos. Como compreender isso? Como compreender as sequelas que o “mal” pode deixar na consciência das pessoas? Como se comportar com alguém que foi traumatizado, um antigo deportado, por exemplo? Enfim, isso fez parte dos nossos debates teóricos. Na verdade, eu sempre me sinto um pouco embaraçado de responder sobre questões teóricas, porque tenho o sentimento de tê-las, um pouco, forjado. As leituras que me marcaram: Maurice Halbwachs e Paul Ricoeur e, sem dúvida, Hannah Arendt, esta não simplesmente pelas suas teses, com as quais não estou necessariamente de acordo, mas, sobretudo, em função de suas implicações com o presente. O que eu mais admiro em Hannah Arendt não são exatamente suas conclusões. Ela, provavelmente, se equivocou sobre várias coisas. Mas é essa forma de fazer uma filosofia no presente e do presente. Da mesma forma que nós queríamos fazer na História do Presente. Esta foi pra mim uma referência importante. Agora existem outros que não foram referências, tal como Michel Foucault. A princípio eu estava bastante afastado dessa maneira de pensar, mas descobri Michel Foucault por outras razões. Em função do que ele denominou de intelectual. Essa foi uma reflexão que me interessou por haver relação com as nossas práticas aqui no IHTP. Vou explicar: a História do Tempo Presente fez face a vários problemas, sendo que um deles foi a demanda social. No momento em que investigávamos sobre o nazismo, sobre Vichy e sobre as guerras, que eram problemas político-sociais para a sociedades francesa, européia e mesmo internacional, nós fomos muito solicitados pelo público em geral. Precisávamos responder a essa demanda social de alguma maneira. Nós então decidimos participar do debate público sem abrir mão da dimensão científica do nosso saber. Nós não estávamos de nenhuma maneira numa posição como a de Pierre Bourdieu, por exemplo, com certa rejeição da mídia e da televisão. Tampouco na posição de intelectual clássico, orgânico, engajado, à serviço do povo, da causa. Esse é um modelo que pessoalmente eu recuso para mim. E com o modelo de Michel Foucault eu me sentia mais capaz. Um exemplo: defender as vítimas da História, defender uma certa concepção da História me parece um ato militante. Eu não o faço. Eu o fiz um pouco e eu poderei refazer, mas não é o meu objeto. Eu não tenho motivação para tal. Defender um ponto de vista, no interior de um debate onde todos se exprimem sobre a História, isso me parece uma postura que é a minha postura ideológica e epistemológica. Eu entendo que Michel Foucault denominou de intelectual algo próximo a isso. Quer dizer, que se amanhã eu estiver em um debate com os sobreviventes da Shoah ou com as vítimas dos massacres de ditaduras na América Latina ─ algo que me aconteceu várias oportunidades ─ e se me demandam compaixão para compreender e ofertar “ferramentas históricas” para que as vítimas se exprimam, eu direi não. Esta não é a minha função. Se você quiser um terapeuta, pode buscar um psiquiatra, ou então, ir às associações de apoio. Eu estou aqui para outra coisa e, talvez, isso não seja útil para estas pessoas. Isso ocorre quando estamos frente a frente com pessoas que gritam: vocês não têm o direito de afirmar isso! Talvez não o direito, mas é a “verdade”, sentimos muito. Indago-me se não simplificamos muito a questão. Este tipo de posição não é a posição de um cientista que afirma que a ciência está acima de tudo. Eu não acredito nisso e, mesmo se acreditasse, isso seria ridículo e ponto final. Mesmo em um debate horizontal, em torno de uma mesa, com militantes políticos, vítimas, políticos profissionais, historiadores e nazistas. Se afirmam que o meu ponto de vista não é superior aos outros, mesmo estando convencido de deter a verdade histórica, mas a testemunha está também convencida de ter a experiência que outros não entendem. Mas é preciso ter essa posição. O grande perigo é de abandoná-la. Há muitos pesquisadores, atualmente, que estão ainda em uma posição na qual o historiador deve estar a serviço das vítimas. Isso é horrível e um grande perigo! O melhor serviço a fornecer às vitímas é lhes dar “armas” de compreensão. Quando eu escuto certos debates, com números, com procedimentos históricos e a enunciar coisas que são falsas e a reclamar ressarcimentos e juros sobre acontecimentos que jamais ocorreram...

Tempo e Argumento - Falamos então de uma instrumentalização da História?

Henry Rousso – Sim, não podemos ser ingênuos, isso é normal. O lugar dos historiadores, atualmente, é o de participantes do debate, mas conscientes dessa instrumentalização. Sempre colocar-se à distância. Dentro do debate, mas com o recuo necessário. Não em uma torre de marfim e sim o oposto.

Tempo e Argumento - O Brasil é um país com extrema desigualdade social, portanto existe também uma parcela de intelectuais e historiadores engajados na luta contra essa realidade.

Henry Rousso – Eu sei e entendo perfeitamente. Eu não critico os historiadores que estão engajados em boas causas e as defendem. Eu tenho ainda uma espécie de ideal de profissão e penso que em sendo demasiado prisioneiro de uma causa não é possível trabalhar. Eu vou dar um exemplo que me diz respeito: quando eu comecei a pesquisar iniciei um estudo sobre os colaboradores (3), sendo que muitos ainda estavam vivos. Afirmaram que eu iria enfrentar os piores problemas, inclusive judiciários, que eu não poderia escrever, que eu não poderia ter acesso aos arquivos, etc. Foi verdade, eu tive alguns problemas. Mas havia um professor que me dizia: ─ amanhã iremos investigar a Resistência, mas de outra forma, diferente daquilo que foi feito nos anos de 1960, quando os resistentes foram propagados como heróis inquestionáveis. Na década de 1980, começamos a estudar de maneira científica e rigorosa a Resistência e percebemos que havia heróis, sem dúvida, mas existiam também os que não o eram, além de uma série de outros problemas. Meu professor afirmou que isto era muito mais complicado do que investigar os colaboradores. Evidentemente, eu posso de um dia para o outro afirmar que Vichy foi um colaborador e que, os nazistas, são todos uns “sujos”. Perfeito, palmas pra mim, não há contestação. Se eu afirmo: tal resistente, que a princípio fez determinadas coisas, na verdade não foi bem assim. Pronto, cai o mundo sobre a minha cabeça. Enfim, eu relato tudo isso para evocar a necessidade de termos pessoas que sejam capazes de falar do passado com certo rigor e distância. Todo mundo tem o direito de falar do passado, mas todo mundo não pode fazer da mesma maneira. O perigo é que os historiadores de hoje abandonem essa postura em função de “combates”, mesmo se as causas sejam perfeitamente legítimas. É como se um advogado mentisse aos seus clientes sobre o Direito. O advogado vai mentir ao juiz, dizendo: o meu cliente é inocente! Mas na verdade ele é culpado. É seu papel. Mas ele não vai mentir ao seu cliente lhe afirmando outra coisa que não a lei. O advogado deve lhe dizer uma palavra de verdade, o cliente aprovando ou não, pouco importa. O historiador é um pouco a mesma coisa. As associações de ciganos solicitaram para nós um estudo sobre a deportação de ciganos, na França, para campos de concentração durante a Segunda Guerra. Pretendiam saber qual o número de mortos, uma vez que fazíamos referência somente aos judeus. Na Europa, houve, aproximadamente, trezentos mil ciganos mortos. Contudo, fizemos uma investigação nos arquivos e concluímos que na França não ocorreu deportação de ciganos. Foi uma descoberta estarrecedora. Na verdade nós “caminhávamos” sobre idéias imprecisas. Antes de nos reunirmos com as associações de ciganos para lhes informar do resultado da pesquisa, nos reunimos, ao longo de uma hora, discutindo sobre como iríamos informá-los. Pois bem, informamos acerca dos resultados da investigação, a qual não foi muito bem recebida. Mas nunca fomos desmentidos. Entendo que este exemplo ilustra algo extremamente importante. Você me colocou uma questão sobre teoria e eu lhe dei uma resposta sobre a ética e epistemologia. Desculpe, eu não sou um teórico.

Tempo e Argumento - Para a construção da História do Tempo Presente os pesquisadores dispõem de um vasto acervo documental onde se destacam as fontes orais e as audiovisuais. O que estes acervos trazem de novo para a escrita da História do Tempo Presente?

Henry Rousso – As fontes orais estavam na origem da História do Tempo Presente. Quando me perguntavam na época: ─ muito bem, você quer uma História do seu próprio tempo enquanto historiador, mas isso quer dizer o quê? Isso quer dizer que nós somos confrontados e nós vivemos no meio de pessoas que possuem uma história. Nós mesmos, nós temos uma história. Portanto, nós iremos nos interrogar e nos interessar por uma história que corresponde, aproximadamente, à duração de uma vida humana. Estávamos em 1980, então, consideramos que os estudos que enfocavam o período anterior a 1900, não dispunham da “palavra-viva”, isto é, testemunhas vivas. Isso é uma base, não é um método, são dados de base. Em seguida, nós nos propusemos a utilizar essas testemunhas e a transformar os seus depoimentos em fontes documentais para o historiador. Não chegou a ser uma novidade, pois os sociólogos faziam isso há mais de trinta, quarenta, cinquenta anos. Mas nós recuperamos os métodos dos sociólogos e começamos a fazer algumas coisas um pouco diferentes. Os sociólogos, geralmente, se interessavam por mecanismos em curso. Nós nos interessávamos por mecanismos do passado. Portanto nós procurávamos alguém não para saber o que ele fazia, mas o que ele fez. Nesse momento, as questões sobre a memória se colocam. As fontes orais foram para nós o primeiro grande problema a contornar. Tínhamos um obstáculo teórico e um obstáculo com as nossas primeiras fontes documentais. Para mim, isso foi e é uma das coisas mais apaixonantes com que me deparei, ou seja, confrontar-se com “a palavra” de outra pessoa. Esta é uma das grandes características a contrariar afirmações que dizem ser a História do tempo presente igual a todas as outras. Desculpe-me, mas compare com a História Medieval: não vai aparecer ninguém, nenhuma testemunha viva para dizer que o que você escreveu é um absurdo. Eu passo meu tempo a escrever coisas. Aparece então uma testemunha e afirma que estou equivocado. Talvez isso não seja grande coisa, mas é certo que não se pode escrever a História da mesma maneira. A imagem e as fontes visuais são diferentes e mais complicadas. Tivemos aqui no IHTP uma corrente que, na atualidade, ganhou em importância. Hoje nós vivemos em um mundo de imagens, algo evidente, mas não nos anos de 1980, onde nós sentíamos, tentávamos entender, mas não sabíamos muito o que fazer com isso. A grande interrogação foi a seguinte: a imagem é uma fonte documental? Está no mesmo nível de importância das fontes escritas? Como abordar as imagens? Podemos analisar por escrito as imagens? Poderíamos utilizar as imagens para tratar das imagens, por exemplo, fazendo filmes nós-mesmos? Temos um historiador conosco, que se chama Christian Delage, que muito utilizou desses recursos. Bem, isso foi a origem das reflexões em torno da imagem. Hoje em dia, a imagem ocupa grande importância entre nós. Atualmente, se um historiador do contemporâneo afirma que as imagens não lhe interessam, seria o mesmo que se um historiador do período moderno dissesse que a pintura não lhe interessa ─ como se dissesse: quero entender a História Cultural do século XVIII, mas a pintura não me interessa. É um pouco isso. Então, é como querer ser um historiador cultural do século XX e o cinema não lhe interessar. Enfim, a única questão que permanece um enigma é saber se temos as ferramentas para decodificar as imagens e isso ainda é um domínio específico. Os historiadores do tempo presente sabem, de uma forma geral, conduzir uma entrevista, contudo, não sabem decodificar as imagens. Temos um abismo entre os que são especialistas no tratamento da imagem, por exemplo, conhecedores da semiologia e aqueles que não detém este conhecimento. Entendo que uma das questões centrais para o futuro da História contemporânea reside aí: sermos capazes de popularizar estas ferramentas de compreensão para todos os historiadores. Não para os especialistas do cinema. A proposta é propiciar para um doutorando que trabalhe com a comemoração do dia 11 de novembro (4) a aprendizagem da decodificação de imagens, já que há vinte anos essa comemoração é essencialmente imagética. Para compararmos, se ele não souber ler as imagens será como se ele não soubesse ler os arquivos com documentação escrita.

Tempo e Argumento - Em relação à historiografia, quais são as diferenças existentes entre a História do Tempo Presente produzida na França e em outros países da Europa (Espanha, Alemanha, etc)?

Henry Rousso – Eu já respondi anteriormente. Eu compreendo que não há mais historiadores franceses, alemães, brasileiros, etc. Há ainda uma historiografia nacional e, aqui, na França, isso é visível. O que faz Nicolas Sarkozy? Vai inaugurar em 2010 um museu de História da França. Francamente isso não é nada inovador. Por outro lado, não há mais um “historiador francês”. Ok, quando eu participo de um colóquio internacional e falo sobre o nazismo as pessoas ouvem que o meu inglês tem um forte sotaque francês e que, talvez, eu faça referência a alguns autores franceses. Mas globalmente, não há mais uma enorme diferença em comparação aos meus colegas alemães, italianos e americanos. Eu não posso afirmar que não existem mais diferenças, mas em todo caso é o objetivo. Em Ciência Política ou em Economia utilizam-se modelos que não são necessariamente nacionais. Na História é o contrário. Tenho certeza que no Brasil 80% dos historiadores investigam temas recolhidos da História do Brasil. Na França não é diferente e vivemos, hoje, uma nova onda nesse sentido. Antes tínhamos a escola de historiadores do mundo hispânico, que há vinte ou trinta anos atrás eram muito mais representativos do que atualmente. Ou então os historiadores americanistas, estudiosos dos Estados Unidos, são raríssimos. Agora, sobre o mundo alemão, russo-soviético e dos países do Leste, estamos bem servidos de historiadores. Portanto para responder à questão, eu entendo que existe ainda uma maneira nacional de fazer a História contemporânea, o que eu deploro. Mas, ao mesmo tempo, temos verdadeiramente uma tendência de proceder de outra maneira. Com outros dois colegas eu dirijo, nesse momento, uma coleção abordando a História da França, desde Hugo Capeto (5) aos nossos dias. Eu me ocupo do período contemporâneo, isto é, dos séculos XIX e XX. Eu solicitei aos historiadores que façam uma História da França que não seja francesa. Ou seja, tentem imaginar que determinadas coisas que parecem específicas à França talvez não seja. Por exemplo, a Revolução Francesa. Sim, foi um grande acontecimento, mas nós não fomos os primeiros, houve outras antes e tão importantes quanto. Como escrever a História da França a partir de 1945 ou de 1914? O que vamos dizer: que a experiência do soldado francês nas trincheiras é única? Isso não quer dizer que eu desejo o desaparecimento da História nacional, não é isso. Compreendo que o papel de um historiador é o de mostrar temporalidades e escalas diferentes. Ou seja, não há somente um olhar sobre a História. Nós podemos estudar Joana d’Arc a partir de um ponto de vista estritamente nacional. Nós podemos estudá-la de um ponto de vista estritamente antropológico, estritamente social e para ajudar a entender o que é o nacionalismo não somente na França, mas por todo lado. Existem múltiplos olhares possíveis sobre Joana d’Arc. É isso o que me interessa na História. Esta multiplicidade faz com que eu me sinta à vontade na História. Eu sempre recusei em outros debates, o fato de historiadores utilizarem categorias jurídicas para debater questões como o genocídio, entre outros. Eu não abro mão da minha liberdade. Eu quero ser capaz de apresentar uma determinada visão própria sobre um problema. Talvez seja um pouco pretensioso de minha parte, mas entendo que este seja o futuro da disciplina histórica.

(1) Governo instituído na França sob a ocupação alemã entre 1940 e 1944.
(2) Holocausto
(3) Franceses que cooperaram com as forças de ocupação alemãs durante a Segunda Guerra Mundial.
(4) Feriado nacional na França, tendo em vista a assinatura em 11 de novembro de 1918, do armistício que decretou o fim da Primeira Guerra Mundial.
(5) Rei dos Francos entre 987 e 996 d.C. Primeiro soberano da Dinastia Capetíngia, que permaneceu no poder por mais de oito séculos e originou linhagens de soberanos na Espanha, em Portugal e no Brasil.

Entrevista de Silvia Maria Fávero Arend e Fábio Macedo para a revista Tempo e Argumento Florianópolis, v. 1, n. 1, p. 201 – 216 jan./jun. 2009 (fonte)