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Anselmo Borges (2012)

Teólogo, filósofo, professor universitário, cronista e autor de vários livros. Crítico reconhecido de diversos aspetos da doutrina oficial católica, o padre Anselmo Borges fala por uma vez de si e do processo de conversão que o levou a pôr em causa a ortodoxia da Igreja Católica. Um percurso polémico e um processo exigente, iniciado aos 25 anos com a primeira crise e uma acusação de heresia e resolvido aos 50, depois de um ajuste de contas consigo próprio. Pelo meio, confirmou que o inferno, afinal, não existe. «Foi uma libertação.»

Disse, numa entrevista, que gostaria de escrever um livro com o título Diálogos Comigo. Com que frase abriria esse livro? 

Sou muitos, a realidade é infinitamente complexa e, para entender, eu quero fazer um ajuste de contas comigo mesmo, com os outros e com Deus.

Que contas são essas que tem a ajustar com Deus?

Por que é que há tanto sofrimento e mal no mundo? Como se pensa o mundo sem Deus? Como se pensa o mundo com Deus?

Vê Deus antes de mais na pergunta. Quando começou essa necessidade da pergunta pelo fundamental? 

Decidi-me a ser padre com 19 anos, porque fui sempre, não sei bem explicar porquê, muito afetado pelas grandes perguntas da vida, concretamente pelo sentido último da existência. Tendo encontrado Cristo, pensei que valia a pena dedicar a minha vida ao anúncio da sua mensagem, que dá sentido à vida e à morte.

Quando percebeu que seria um padre «problemático»? 

A primeira imagem que tenho de mim é a de alguém que reivindicou autonomia. Tinha 3 anos e o meu pai mandou-me apanhar uma faca que caíra ao chão. De facto, não tinha sido eu a deitá-la ao chão. Ele fez tudo para que eu a apanhasse, abriu, inclusivamente, a minha mão, mas eu não a levantei. Recordo-me de em miúdo pensar que uma vida de pura obediência aos pais e a Deus seria uma vida oprimida e sem interesse. Por isso, quando procuro o fio condutor da minha vida de padre, julgo encontrá-lo no facto de lutar pela liberdade, contra a dogmática fixista, que pensava deter a verdade toda e definitiva. Eu precisava de conviver com a humanidade toda e pensamentos outros.

Como lidou então com o imperativo de obediência a Deus e a vida do seminário? 

Fui para o seminário em 1954 e devo dizer que tenho uma boa recordação. Os formadores interessavam-se e queriam o nosso bem. Havia muita disciplina, sentido do trabalho, mas, ao mesmo tempo, muitos recreios. Aquilo fazia sentido, tinha bastante equilíbrio. O aspeto mais negativo está ligado com a afetividade, que ficava muito bloqueada. Em grande parte resolvi essa questão porque tive sorte, convivi com famílias sãs e muitos jovens, rapazes e raparigas, que ajudaram a quebrar o bloqueio. Mas ainda haverá marcas.

Nasceu em 1944, em Resende. O sacerdócio foi uma vocação de infância? 

A minha mãe era muito religiosa e o meu pai era crente a sério, embora muito crítico em relação à religião oficial. Portanto, tiveram uma profunda alegria em ter dois filhos padres. Nunca pretenderam tirar benefícios materiais desse facto. Por isso é que nós estivemos, e estamos, num instituto missionário. O meu irmão mais velho sempre quis ser padre. E eu acabei por ir também, até porque ele estava lá. Mas fui padre convictamente.

Chegou a pensar que para conviver com a humanidade toda teria de renunciar a Deus e à Igreja? 

Renunciar, não. Mas rever, desconstruir e reconstruir. A primeira crise foi aos 25 anos, ensinava no Instituto Superior de Estudos Teológicos do Porto, acabado de chegar de Roma. Mas ensinava sem grande convicção. Era pequeno e pouco o que me tinham ensinado, no sentido de que aquilo eram sobretudo doutrinas e fórmulas e não vinha de dentro. Que diabo, pensava eu, não é bem isto. E, certo dia, reuni com os meus colegas padres do seminário, para dizer-lhes: «Eu não acredito que a Igreja Católica tenha a verdade toda. Portanto, se vocês acham que estou a ser desonesto para com a Igreja, eu saio.» Não sei se perceberam bem o que eu lhes disse, mas a verdade é que me disseram para continuar.

Depois do seminário, seguiu para Roma, para a Universidade Gregoriana. Que relato faz desse tempo? 

Aquilo que mais me impressionou não foi o esplendor do Vaticano, mas sim o esplendor cosmopolita. Íamos de Portugal, um país sem democracia, que estava em guerra colonial, não havia pluralismo. Quando cheguei a Roma, a televisão tinha debates, havia vida e foi isso que me seduziu. A liberdade de debate. Estávamos em 1967, o Concílio Vaticano II tinha acabado em 1965, e ainda havia os ecos em ebulição. Foram tempos de liberdade e de cosmopolitismo. Essa foi a grande experiência. Comprei um bilhete de estudante e viajei por toda a Europa. Andei a ver e a ganhar mundos, que era o que eu queria.

Nessa altura viveu também na Alemanha. Como lidou com outros credos e outras maneiras de ser cristão?

Saíamos daqui dogmáticos. Fora da Igreja, que sabia tudo, não havia salvação. Enquanto miúdos fomos permanentemente formados nisso. Diziam-nos que os protestantes eram gente com quem não podíamos contactar, que estavam condenados ao inferno. Muito jovem, na Alemanha, uma família protestante convidou-me para jantar. E o mesmo aconteceu com uma família muçulmana. E perante eles, pessoas admiráveis - pessoas, tão simples quanto isso -, pensei o que hoje pode parecer e é normal, mas que na altura era um enorme atrevimento: em primeiro lugar, somos todos homens, não podemos andar aqui a levantar barreiras. E daí ter surgido a minha primeira crise: era preciso repensar a Igreja e a própria figura de Jesus.

Regressa a Portugal em 1970. Leciona no Instituto Superior de Estudos Teológicos do Porto [ISET], promove conferências em que participam intelectuais como Óscar Lopes, e é considerado herético. Como é que recebeu a acusação?

Fui considerado herético pelo bispo de Portalegre e Castelo Branco de então, que foi acusar-me ao diretor do ISET. Mas o diretor esteve muito bem e desafiou-o a apresentar por escrito as minhas heresias.

E ele apresentou? 

Tanto quanto sei, não.

Teve alguns escritos proibidos pela PIDE e realizou em 1972 um colóquio sobre o tema «Fé e contestação». 

Foi uma clara provocação ao regime. Sim, alguns escritos estiveram proibidos e disseram-me, e é verdade, que o meu nome constava na PIDE. O colóquio, que realizei em 1972, foi de facto um arrojo, um atrevimento, que só foi possível graças a D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, um homem notável, que sempre me apoiou.

Em 1974, com 30 anos, trabalhava ativamente com jovens. Nesse ano, compôs um Credo, em que se cria mais em Deus do que na Igreja. Recorda-se do texto? 

Até está publicado. Em síntese, diz que «cremos em Deus Pai, que por amor criou todas as coisas. E em Jesus Cristo, que foi totalmente livre, que amou a todos, amigos e inimigos, que triunfou da morte e que está vivo, mostrando assim que o sentido da existência é a vida e não a morte».

Em 1977 é vice-presidente do Instituto António Sérgio. 

Para satisfazer o pedido insistente do presidente, um grande amigo, Fernando Ferreira da Costa. Mas foi uma passagem curta, pois o meu superior - veja a linguagem eclesiástica: superior - comunicou-me que aquele cargo era incompatível com a minha condição de membro da Sociedade Missionária.

É nessa altura que começa a frequentar o Botequim da Natália Correia. 

Sim. Conheci então vários políticos, nacionais e no estrangeiro, e figuras da cultura, e perdi alguma inocência política. Não quero nem posso generalizar, mas há nos políticos algum distanciamento do povo, alguma incompetência. É dessa altura o meu encontro com a Natália Correia, que simpatizava comigo. Era uma mulher da cultura e profundamente preocupada espiritualmente. Quando morreu, pediram-me para ir dizer umas palavras no funeral.

Fez teatro no seminário. Que livros, que música, que pintura, aprecia e o comovem? 

Sempre pensei que a primeira revolução é a da cultura. A Natália também tinha essa ideia. Fiz teatro, no seminário. Fiz um curso de visualização de cinema, em Roma. Livros, li tudo o que pude (antes do 25 de Abril, amigos meus traziam-me livros proibidos do estrangeiro): literatura, filosofia, teologia. Aprecio sobretudo a grande música clássica, que pode comover-me até às lágrimas - a música é o divino no mundo. Tive a oportunidade de viajar e não perdi os grandes museus - falo aos estudantes de grandes quadros, por exemplo, As Botas, de Van Gogh, em Amesterdão.

Depois da licenciatura em Teologia, fez sociologia em Paris, e Filosofia, em 1985, em Coimbra. Estava a preparar-se para a luta consigo próprio que se aproximava? 

Certamente. Estudei sobretudo por causa de mim, para entender-me e entender o mundo. Isto é, precisava de estar no mundo de uma forma ordenada e honesta. Estudei Teologia. Depois, fui ver como funcionavam as instituições, sobretudo as religiosas, daí ter seguido Ciências Sociais. E, mais tarde, fui para a Filosofia, para meter mais a razão ao barulho.

Lembra-se de alguma experiência marcante nesta luta? 

Várias. Mas sobretudo a que me levou a acabar com o medo do inferno. Em 1989, tinha eu 45 anos, comprei em Friburgo, Alemanha, a última obra do teólogo Edward Schillebeeckx, Homens. A História de Deus. Na viagem de comboio para Genebra, li-a e lá estava a confirmação da minha intuição: «não há inferno». Isto foi uma libertação: se houvesse possibilidade de alguém dizer definitivamente não a Deus, então, na morte, ficava no nada. Ora, o nada é melhor do que o sofrimento eterno. Somos limitados, a nossa liberdade é pequena e muito condicionada - então, como é que uma liberdade condicionada pode determinar uma vida eterna falida? Não há condenados. Foi uma experiência absolutamente marcante.

Mas há céu? 

Espero convictamente que, na morte, não cairemos no nada, mas na plenitude da vida de Deus. Assim, a nossa vida neste mundo é a sério e tem consequências no além, pois Deus não pode levar à plenitude possibilidades que não realizámos aqui. Como é? Ninguém sabe.

Quando se deu finalmente a rutura com a ortodoxia?

Mas eu sou ortodoxo, no sentido de seguir a reta doutrina; procuro é interpretá-la para o tempo atual. De qualquer forma, em 1994, já melhor apetrechado, com mais mundo, já depois de aprofundar mais a história do pensamento e contactar de perto com grandes teólogos e filósofos, disse para mim mesmo: «Vou pôr entre parêntesis tudo aquilo que me ensinaram. Vou repensar tudo isto. Veremos o que vai resistir e o que não vai resistir.» Não foi por arrogância, eu é que precisava de fazer um ajuste de contas comigo. Tinha de formar um puzzle - eu, Deus, os outros, as ciências. E o puzzle começou a compor-se. E consegui articular a minha fé com os diferentes saberes e os diferentes posicionamentos dos homens e das mulheres, ao longo dos tempos. Agora estou de bem.

Foi um processo doloroso? 

Muito, muito. Foi complicado. Tive de desconstruir aquilo que me tinham dado e que me tinham ensinado, foi profundamente doloroso para mim.

Ao longo desse tempo, nunca duvidou da fé? 

A minha fé convive com a dúvida. É fé, embora com razões. Mas compreendo bem os agnósticos e os ateus. A fé não tem que ver, em primeiro lugar, com dogmas. Nós não acreditamos em dogmas. Isso são coisas, é o divino «coisificado». Nós acreditamos em Deus e em Cristo.

Há quem o considere um teólogo, sim, mas não da doutrina católica. 

Eu considero-me católico, até etimologicamente falando, pois católico quer dizer universal. E, na Igreja Católica, deve haver liberdade de pensamento e haverá inevitavelmente conflitos de interpretações. Portanto, exerço esse meu direito e, diria também, esse meu dever. Talvez me tenha desligado da «ortodoxia» no sentido vulgar da palavra, mas, como procuro ser leal, julgo que estou de acordo com o essencial.

O que é o essencial? 

O essencial é pouco e é tudo: acreditar em Deus enquanto mistério último da realidade, que é amor e nos é favorável, e acreditar em Jesus, o Cristo. E acreditar também nos homens e nas mulheres.

Há uns anos, no final de uma conferência, uma senhora comentava: «Estava tudo a correr tão bem até chegar o padre ateu.» Esta incomodidade que suscita em alguns crentes é um elogio? 

Poderia ser um elogio, no sentido em que o crente verdadeiro tem de começar por ser ateu, tem de derrubar todos os ídolos. Só depois é que pode, verdadeiramente, acreditar no Deus verdadeiro.

Acredita em Fátima? 

Pode ser-se católico e não acreditar em Fátima. Mas não excluo que os pastorinhos tenham tido uma experiência religiosa própria de crianças.

Que relação mantém com a hierarquia que tanto critica? 

Uma relação leal de diálogo, uma relação agradável com muitos bispos, inclusivamente, fui colega de alguns na universidade. Do cardeal-patriarca, por exemplo, na Universidade Gregoriana, um excelente colega, bem-disposto.

Recebe reparos? Por exemplo, quando argumentou que em certos casos o uso do preservativo pode ser moralmente obrigatório? 

É possível que, uma ou outra vez, alguns bispos sintam alguma incomodidade com o que eu digo e escrevo, mas eu também a sinto em relação àquilo que alguns deles dizem e fazem.

Tem um amigo, um interlocutor especial na Igreja portuguesa? 

Não. Mas houve pessoas, três grandes amigos, professores com os quais fui dialogando. E a minha irmã, que sempre me vai dizendo: «Alguns podem não gostar, mas não tenhas medo, tu tens razão.» Por paradoxal que pareça, tenho uma imensa dívida de gratidão para com um filósofo ateu, que conheci pessoalmente, Ernst Bloch.

E como é que o seu irmão, também padre, olha para o seu percurso? 

Como irmão.

Denuncia falta de liberdade de expressão na Igreja. Algum dia sentiu esse medo de falar ou escrever? 

A estrutura do medo pode ser interiorizada. E também há os medos espirituais, que são os piores. Os fiéis têm medo do padre, o padre tem medo do bispo, os bispos têm medo do papa e o papa tem medo de Deus. Isto não faz sentido. O medo tolhe e leva à agressão. Arranjaram um Deus que mete medo. Ora, se Deus mete medo, é melhor ser ateu. Uma vez fiz um exercício: «Este Deus não existe; se existisse, matava-me.» Não me matou; portanto, fiquei livre. Deus não pode ser terrífico. O filho de Abraão, Isaac, tornou-se ateu, seguramente, pois Deus «mandou» que o pai o sacrificasse. Nós pregamos barbaridades. Há aqueles que se espantam por haver tão pouca gente na missa, eu espanto-me por ainda haver muitos que vão à missa. Houve milhões de pessoas para as quais teria sido preferível nunca terem ouvido a palavra «Deus». Ficaram com a vida estragada. Por isso é que admiro aqueles ateus que ousaram levantar perguntas, quando pensar diferente levava à fogueira do inferno e da Inquisição. São santos da humanidade.

Pregar «Deus é Amor» pode levar os crentes a concluir: «Então faço o que quero», dizem os conservadores da Igreja.

Nada disso. Dizer isso é uma estupidez, pois significa desconhecer o que é o amor. O amor é tremendamente exigente, entre homens e mulheres, entre amigos, com Deus. O amor implica dignidade e capacidade de entrega e sacrifício pelo outro.

De 1983 a 1986 viveu em Moçambique como professor no Seminário Maior. O que ganhou dessa experiência? 

Era considerado o pior país do mundo para viver. Era uma guerra civil terrível. Ali, aprendi muita coisa. Aquilo era um horror - um regime comunista tirânico. Havia a fome e ao mesmo tempo gente generosa. E alegre, apesar de melancólica. Foi uma lição.

Agora que tem o mundo ordenado, qual é a grande questão que coloca a Deus? 

A grande pergunta com que sou confrontado também pelos crentes: o sofrimento das crianças inocentes - é uma tragédia pessoal, o meu coração fica partido. E também «porque é que há tanta estupidez no mundo?» Sabe, eu tenho alguma confiança na razão, na inteligência. Acho que Deus poderia ter feito isto um bocadinho melhor. Que Ele me perdoe.

Que resposta recebe? 

Deus não podia criar um mundo infinito, portanto, sem limitações, porque isso é contraditório. Assim, num mundo finito, o mal é inevitável. Depois, no meio do sofrimento, temos de encarar a vida e cada um dá a sua resposta. A resposta do crente é que isto é um processo, esperamos confiada e ativamente que, para lá do espaço e do tempo, se realize o cumprimento da esperança.

Como é que explicaria o perdão católico às mães dos jovens que foram assassinados na Dinamarca por Anders Breivik? 

Até o filósofo Derrida, nos últimos tempos de vida, colocou essa questão. «É a partir do perdão que pode surgir a questão da religião», dizia ele. O carrasco não tem o direito ao perdão. E a vítima não é obrigada a perdoar. Portanto, o perdão transcende a justiça.

É nesse sentido que diz que o perdão é um milagre? 

Exatamente, porque não é da ordem do cálculo. Sou muito sensível à dívida para com as vítimas inocentes da história. Quem paga essa dívida? Este é um ponto fundamental para colocar a questão de Deus.

Como é que lida com a morte? 

Não me reconcilio com a morte, mas tento. Veja: a morte confronta-nos com o nada. Por isso é que não temos medo dela, mas sim angústia. O medo refere-se a algo concreto; a angústia, ao nada. Então, tudo desaba. Tento reconciliar-me com a finitude e procuro viver aqui e agora, de forma intensa. Só uma vida amada e amante é que pode esperar a vida eterna.

Deus é indefinível, diz. Mas qual é a palavra mais aproximada? 

Acho que há três palavras: Criação, Amor, Beleza.

Comemoram-se este ano cinco décadas do Concílio Vaticano II. Que é feito da abertura que ele trouxe? 

João Paulo II fez um imenso apelo à compreensão dos homens, entrou numa sinagoga, numa mesquita. Hoje são gestos evidentes, mas na altura não eram e foram muito dignificantes. Também numa encíclica, defende os trabalhadores e diz que o trabalho tem precedência sobre o capital. Isso é notável. Julgo, também, que foi o primeiro papa a falar de ecologia. Mas ao mesmo tempo que pediu perdão pelos crimes da Igreja, foi um papa que condenou muitos teólogos. Um tempo em que os lugares importantes foram sendo ocupados por bispos conservadores, para que travassem o Concílio Vaticano II. Com o papa João Paulo II e com o atual papa houve muito recuo. A Igreja Católica vive uma crise imensa e o problema maior é a Cúria Romana.

Há quem atire a culpa da crise da Igreja precisamente para o Concílio. Como estaria a instituição se ele não tivesse existido? 

Sem o Vaticano II a Igreja seria uma seita.

Em 2000 defendia a realização de um concílio. E hoje? 

Hoje temeria isso, porque, entretanto, Roma foi tapando perspetivas que vinham do Concílio Vaticano II. Temeria que, hoje, em vez de abrir, um concílio fechasse ainda mais.

A Igreja portuguesa acompanhou essa regressão? 

A Igreja portuguesa vive de modo bastante morno.

Está pessimista quanto à sucessão, portanto. 

O último conclave nomeou, sobretudo, cardeais europeus e italianos. Isto é contra a universalidade do cristianismo. Há ali uma série de estratégias para condicionar a eleição do próximo papa.

A perestroika na Igreja não significaria o colapso? 

O ser humano é o resultado de uma herança genética e de uma cultura. Portanto, nós vamo-nos fazendo. Quanto mais me abro ao outro, mais venho a mim. A identidade é atravessada pela alteridade. É nesta dinâmica, até antropológica, que deve entender-se o diálogo ecuménico e inter-religioso. As outras religiões também têm verdade. Eu, como cristão, não pretendo tornar o budista cristão. Nós estamos reunidos por este mistério último a que chamamos Deus. E a Igreja existe para o serviço da humanidade e não para si mesma.

Como pode ser a Igreja democrática, se assenta numa verdade divina? 

Nós apontamos para uma realidade que é o mistério último enquanto amor, ao qual chamamos Deus, mas ninguém possui Deus. Temos uma perspetiva sobre a verdade, mas ninguém a possui. Gostaria de um concílio para que a Igreja tomasse consciência da pluralidade de vivência e interpretação do mesmo Evangelho. Mais: na presente situação do mundo, deveria fomentar-se uma grande assembleia de todas as grandes religiões do mundo para debaterem as grandes questões de humanidade num mundo globalizado: o papel das religiões, a globalização, questões fundamentais de bioética, de ecologia, de justiça mundial.

Que reforma da Cúria Romana propõe? 

Menos gente, menos burocracia, mais internacional, mais competência, mais transparência, mais mulheres. Não há fundamento teológico algum para não ordenar mulheres. É uma questão sociológica. As mulheres podem estar de mal com a Igreja porque são discriminadas, mas Jesus não as discriminou.

Acabava com a infalibilidade papal? 

Perguntem a Joseph Ratzinger se ele acredita que Bento XVI é infalível. Só Deus é infalível. Em 1983, tive oportunidade de falar com João Paulo II nos aposentos privados. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu íntimo: é apenas um homem.

A propósito, até nesse dia recusou usar cabeção. Porquê essa inflexibilidade? 

Nunca gostei do cabeção nem de fardas. No dia seguinte à minha ordenação, recebi uma advertência do cardeal Cerejeira porque andava em Fátima em mangas de camisa. Mas, se estava calor, como havia eu de andar? Isto hoje parece ridículo, mas, na altura, em 1967, era uma ousadia, uma falha tremenda.

Que papel deve ter o papa? 

Alguns protestantes e ortodoxos estariam dispostos a aceitar um papa, mas não um papa com poder absoluto. Tinha de ser tão-só um sinal pastoral de unidade da Igreja. A vida de mais de mil milhões de seres humanos católicos entregues a um homem só não faz sentido.

Que poder tem, atualmente, a Igreja? 

É uma boa pergunta. Algum deve ter, caso contrário, não faria sentido tanta contestação a certas posições da Igreja, como por exemplo a da moral sexual. Um poder que é hoje menor, porque as pessoas reivindicam muito mais a autonomia. Mesmo em Portugal.

Há quem defenda que a tendência vai no sentido de uma Igreja de minoria. 

Na Europa, é um facto sociológico. Tive uma grande professor de Teologia, Karl Rahner, que já na altura falava da diáspora, pequenos grupos espalhados pela sociedade que se reconhecem como cristãos. Estamos a entrar numa Igreja de voluntários.

Como deve a Igreja lidar com os temas chamados «fraturantes»? 

Cada vez mais, temos de debater estas questões enquanto seres humanos e não enquanto crentes. As questões de e da humanidade devem ser debatidas por todos. E a Igreja também tem direito de apresentar o seu ponto de vista. O que tem é de fazê-lo argumentativamente.

Há uma ética natural? 

A ética é, antes de mais, uma questão humana e não uma questão religiosa. Vimos ao mundo por fazer e devemos fazer-nos e fazer-nos bem. Em questões complexas, devemos debater todos.

Confrontado com uma situação terminal, aceitava pôr fim à vida de quem lho pedisse? 

Pessoalmente, não o faria. Mas compreenderia quem o fizesse, a pedido de alguém que estivesse nessa situação-limite.

Colocava então de lado a possibilidade de um milagre? 

Só acredito nos milagres do amor.

Os avanços da ciência afastam-no ou aproximam-no de Deus?

Nem afastam nem aproximam. A ciência é ciência e Deus é Deus e a fé é fé. E uns acreditam e outros não, com razões.

O que é hoje o pecado? 

O que sempre foi: estragar a vida própria ou a dos outros.

Propõe a revisão do dogma da Imaculada Conceição de Maria. Não é uma heresia? 

O que é preciso rever é a doutrina do pecado original, que não faz sentido. Como é que, aceitando a evolução, era possível o pecado dos primeiros pais, Adão e Eva, ter desgraçado a vida da humanidade inteira e da própria natureza? Santo Agostinho interpretou o pecado de Adão e de Eva como o primeiro pecado e um pecado herdado. Isto é, em Adão, todos pecaram. Ora, isto não cabe na cabeça de ninguém. Santo Agostinho não hesitou em deixar cair no inferno as crianças que morriam sem batismo. E ficámos com um Deus que precisou da morte do filho, Jesus, para se reconciliar com a humanidade. Isto envenenou completamente o cristianismo. O pecado original não está no Evangelho e o dogma da Imaculada Conceição é contra as mulheres, porque conceberiam e andariam com o pecado dentro delas durante nove meses. Eu limito-me a pregar Cristo que é libertador.

Mais uma vez: se a Igreja for ao encontro dessa liberdade, não perde o poder que ainda tem?

A Igreja não existe por causa do poder, mas por causa da libertação dos seres humanos em todos os domínios: libertação do pecado, do ódio, da injustiça, da morte.

Está contra o celibato enquanto lei. Gostaria de ter sido marido e pai? 

A Igreja não pode impor por lei aquilo que Jesus entregou à liberdade. Sempre gostei de mulheres. Se não casei, não foi por falta de oportunidades. Mas, na presente situação da Igreja, se quisesse ser padre, tinha de aceitar o celibato, e foi o que fiz. Na sequência daquilo que quis fazer na vida, não teria possibilidade de fazer uma mulher feliz. Precisava de grande liberdade para me dedicar a estas tarefas, em várias partes. Procuro empenhar-me profundamente com as pessoas, com os estudantes. Mas nós, padres, não tendo mulher nem filhos, alguém que dependa profundamente de nós, corremos o risco de imenso egoísmo.

Afirma que a Igreja tem recuperado a religião oficial do sacrifício. Se Cristo voltasse, homem, seria de novo condenado? 

Creio que sim. Não quero condenar ninguém, porque também estou na fila, mas isso leva-me a interrogar-me: o que é que em mim é cristão? Jesus veio como libertador. Jesus colocou o ser humano no centro. O ser humano é mais importante do que os próprios preceitos de Deus.

«Amar o próximo como a si mesmo» está acima de «Adorar a Deus sobre todas as coisas»? 

Diria que sim. São Mateus não pergunta se fomos à missa, mas sim se demos de comer ao outro. É o que lá está. O cristianismo, através de Jesus, trouxe ao mundo a «pessoa humana» e a sua dignidade. O que depois os cristãos fizeram disso é outra coisa.

A caridade permite que cada pessoa possa realizar dignamente a sua humanidade? 

Não. O que se chama caridade tem de ser caridade política. A Igreja hierárquica tem de ser muito viva e contundente na declaração dos direitos, nomeadamente os direitos sociais. Portugal diz-se um país de maioria católica, mas que não é cristão. A caridade nasce da urgência, mas nunca devemos esquecer que não se pode dar por caridade aquilo que é devido por justiça. Há pessoas que pensam que nunca mais existirão revoluções. Tirem daí a ideia. Eu temo o pior. Não excluo o perigo de um conflito armado global.

Chamaram-lhe semeador de horizontes. Com que defeitos, prazeres e tentações? 

Tenho imensa alegria em semear horizontes e pôr as pessoas em marcha para o infinito do pensar. Prazer em ir para a praia apanhar sol, só ou acompanhado, em ouvir música, em viajar para conhecer mundo, num bom jantar com excelente vinho e um amigo ou amiga. Defeitos? Talvez alguma depreciação de colegas eclesiásticos, e há quem diga que sou vaidoso. Tentações, as normais.

Como é o seu dia a dia? 

A quase totalidade do tempo é passada na preparação das aulas, publicações, conferências. Depois, tenho a sorte de viver ao pé do mar. São 15 quilómetros sobre a areia. Lá, estou comigo, com serenidade e com a força do mar. Ali medito e rezo, andando. Também ouço música.

Vive num seminário, não tem uma casa, partilha o que ganha com a sua comunidade. 

Vivo em comunidade no instituto, o que também tem vantagens. Esta coisa de não ter uma casa própria dá um enorme desprendimento.

PERGUNTAS DE ALGIBEIRA 

O livro da sua vida.
A Bíblia, claro. E Os Pensamentos, de Pascal.
Uma cena de um filme. 
Aquelas cenas do filme de Bergman O Sétimo Selo: o cavaleiro e a morte jogando xadrez, e é ela que nos dá xeque-mate, e a confissão ao padre, que na realidade era a morte disfarçada.
Uma música. 
Fidélio, de Beethoven, e Um Requiem Alemão..., de Brahms.
A última vez que chorou 
Fui ensinado a controlar as emoções. A última vez que chorei desalmadamente foi na morte do meu pai e da minha mãe. Presidi ao funeral da minha mãe, mas não consegui ir até ao fim.
O que é que vê na televisão? 
Não tenho tempo. A única coisa, quando posso, é o telejornal das dez, na RTP2. Acho aquilo sóbrio e gosto de um ou outro comentador.
Um lema. 
Vive agora.
E contra a crise? 
Crise unida a oportunidades. 
Quantos minutos gasta diariamente a ler o jornal? 
Bastantes. Tenho de estar informado. Sendo professor, tenho de estar atento às notícias e tenho de me informar sobre as grandes questões políticas, económicas e financeiras do mundo.
E o e-mail? 
Infelizmente, tenho de usá-lo bastante, profissionalmente.
Um lugar para passar a reforma?
Onde estou, em Valadares. Gosto do sol, do mar. E ali à volta está grande parte dos meus amigos.


Entrevista de Alexandra Tavares Teles in revista Notícias Magazine de 18 de março de 2012 (fonte)