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Truman Capote (1957)


(...)

Truman Capote mora numa grande casa amarela, que foi recentemente restaurada com o gosto e a elegância que caracterizam, em geral, tudo o que empreende. Enquanto eu entrava, estava ele com a cabeça e os ombros metidos num engradado que acabara de chegar, contendo um leão de madeira.
Ei-lo – exclamou, puxando-o com esforço, para fora do engradado, num explêndido nascimento, em meio a uma confusão de serragem e maravalhas. - Acaso já viram algo assim esplêndido? Bem, aí está! Vi-o e comprei-o. Agora ele é todo meu.
- É grande - comentei. - Onde irá colocá-lo?
- Ora essa! Junto à lareira, claro! Agora, vamos para a sala-de-estar, enquanto chamo alguém para limpar toda esta mixórdia.
A sala de visitas é, em seu caráter, vitoriana, e contém a mais íntima coleção de objetos de arte e tesouros pessoais, a qual, a despeito de seu arranjo ordeiro em mesas envernizadas e estantes de bambu, lembra, de certo modo, o conteúdo dos bolsos de um menino muito astuto. Há, por exemplo, um ovo de Páscoa dourado trazido da Rússia, um cachorro de ferro, de certo modo a pior coisa para se usar, uma caixa para pílulas Fabergé, algumas bolas de gude de mármore, uma fruta de cerâmica azul, pesa-papéis, caixas Battersea, cartões-postais e fotografias antigas. Em suma, tudo que talvez pudesse ser útil ou estar à mão em dias de aventura em volta do mundo.
Ao primeiro olhar, Truman Capote parece adaptar-se muito bem a essa impressão. Éle é pequeno e louro, com uma mecha de cabelos que insiste em cair sobre os olhos, e seu sorriso é súbito e ensolarado. Seu contato com alguém que acaba de conhecer é de franca curiosidade e cordialidade. Ela poderia ser tomado por quem quer que fosse e, na verdade, parece bastante disposto a se-lo. Há alguma coisa nele, porém, que faz com que se sinta que, apesar de toda a sua espontaneidade, seria difícil a alguém enganá-lo, e que seria melhor, mesmo, nem sequer tentar fazê-lo. Houve um ruído de passos arrastados no hall, e Truman Capote entrou na sala, precedido por um grande buldogue de focinho branco.
- Este é Bunky - disse ele.
Bunky farejou-me todo e sentou-se.


- Quando foi que começou a escrever?

Quando tinha dez ou onze anos e vivia perto Mobile. Eu tinha de ir ao dentista, na cidade, aos sábados, e fiquei sócio do Sunshine Club, que foi organizado pelo jornal Mobile Press Register. Havia uma página de concurso de escritos e de colorido de desenhos, sendo que, ainda, todos os sábados, à tarde, eles realizavam uma festa com Nehi e Coca-Cola grátis. O prêmio, para quem ganhasse o concurso de contos, era um pônei ou um cão, esqueci qual deles, mas eu desejava tremendamente conquistá-lo. Eu notara as atividades de alguns vizinhos, que não tinham sido bem sucedidos, de modo que escrevi uma espécie de roman à clef intitulado Old Mr. Busybody, e entrei no concurso. A primeira parte da narrativa apareceu num domingo, sob o meu nome verdadeiro de Truman Streckfus Persons. Só que alguém, subitamente, percebeu que eu estava apresentando como ficção um escândalo local, e a segunda parte jamais foi publicada. Não ganhei, naturalmente, coisa alguma.

- O senhor já estava convencido, então, que desejava ser escritor?

Eu percebia que desejava ser escritor. Mas não estava certo de que o seria, antes de completar quinze anos. Na ocasião, eu havia, imodestamente, começado a enviar contos a revistas e a publicações trimestrais. Claro que escritor algum jamais esquece seus primeiros trabalhos aceitos: mas um belo dia, quando eu contava dezessete anos, vi aceitos o primeiro, o segundo e o terceiro contos, todos eles através do correio matinal. Oh, aqui estou para dizer-lhe que "tonto de excitação" não é uma simples frase!

- Que escreveu primeiro?

Contos. E minhas ambições mais inabaláveis ainda hoje giram em torno desse gênero. Quando seriamente explorado, o conto parece-se ser a mais difícil e disciplinadora forma de prosa que existe. Qualquer que seja o controle e a técnica que eu possa ter, devo-as inteiramente a meu adestramento nesse meio de escrever.

- A que é que a senhor se refere, exatamente, como "controle"?

Refiro-me a manter um domínio estilístico e emocional sobre o material com que se lida. Pode chamar a isso de afetação e ir para o diabo, mas creio que uma história pode ser arruinada por um ritmo defeituoso numa sentença - principalmente se ocorrer em sua parte final - ou um erro na divisão dos parágrafos, ou mesmo de pontuação. Henry James é o mestre do ponto e vírgula. Hemingway é um construtor de parágrafos de primeira classe. Do ponto-de-vista do ouvido, Virginia Woolf jamais escreveu uma frase má. Não quero com isso dizer que eu pratique com êxito o que prego. Procuro fazê-lo, eis tudo.

- De que modo se chega à técnica do conto?

Já que cada história apresenta seus próprios problemas técnicos, não se pode, evidentemente, generalizar acerca dos mesmos numa base de dois mais dois igual a quatro. Encontrar a forma exata para a nossa narrativa consiste simplesmente em perceber a maneira mais natural de contar a história. O teste para se saber se um escritor adivinhou ou não a forma natural de sua história é apenas este: após lê-la, pode acaso a gente imaginá-la diferentemente, ou ela está de acordo com a nossa imaginação e nos parece absoluta e final? Como uma laranja é final. Como uma laranja é algo que a natureza fez de modo absolutamente certo.

- Existem, acaso, expedientes que a gente pode usar para melhorar a técnica?

O trabalho é o único expediente que conheço. A arte de escrever possui leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura ou a música. Se a gente nasce conhecendo-as, ótimo. Se não, deve aprendê-las. Depois, readapta-las, para que se ajustem a nós. Até mesmo, nosso mais extremado desrespeitador de tais leis, era um artífice soberbo; escreveu Ulysses porque pôde escrever Dubliners. Muitíssimos escritores parecem considerar o escrever contos como um exercício de dedos. Bem, em tais casos, são por certo unicamente seus próprios dedos que eles estão exercitando.

- O senhor teve muito estimulo nos primeiros dias e, em caso afirmativo, por parte de quem?

Santo Deus! Receio que o senhor tenha enveredado por toda uma saga. A resposta é um ninho de serpentes de nãos e de uns poucos sins. Como sabe, minha infância, não inteiramente, mas em grande parte, foi passada em várias regiões do país e entre pessoas desprovidas de qualquer semelhança com uma atitude cultural. O que, afinal de contas não foi uma coisa má. Isso me enrijeceu bastante cedo para nadar contra a corrente; em certos lugares, com efeito, desenvolvi músculos de um verdadeiro barracuda, principalmente na arte de lidar com inimigos, arte não menos necessária que a de saber apreciar amigos. Mas, voltando ao que dizíamos. Naturalmente, no ambiente a que me referi, eu era considerado um tanto ou quanto excêntrico, o que era bastante justo, bem como estúpido, coisa que me causava, naturalmente, ressentimento. Todavia, eu desprezava a escola - ou escolas, pois que estava sempre mudando de uma para outra - e, ano após ano, fracassava, por pura aversão e fastio, nas matérias mais simples. Eu faltava às aulas pelos menos duas vezes por semana, e vivia sempre fugindo de casa. Certa vez, fugi com uma amiga que morava do outro lado da rua - uma garota muito mais velha que eu e que, anos mais tarde, conquistou certa fama: assassinou meia dúzia de pessoas e foi eletrocutada em Sing Sing. Alguém escreveu um livro a respeito dela. Chamavam-na a Matadora dos Corações Solitários. Mas aqui estou eu, de novo a divagar. Bem, finalmente - creio que eu contava então cerca de doze anos - o diretor da escola fez uma visita à minha família e disse-lhe que, na sua opinião, eu era "subnormal". Achava ele que o ato mais sensato, mais humano, seria me enviarem a uma escola especializada em tratar de fedelhos retardados. Minha família, o que quer que tenha sentido intimamente ficou ressentida e, esforçando-se para provar que eu não era um retardado mental, enviou-me à clínica psiquiátrica de uma universidade do Leste, onde meu Q.I foi verificado. Quanto a mim, diverti-me à grande com tudo aquilo e - imagine o que aconteceu? - voltei para casa como sendo um gênio proclamado pela Ciência. Não sei quem ficou mais espantado: se meus ex-professores, que se recusavam a acreditar naquilo, ou se minha família, que não queria crer no resultado, pois esperava apenas que lhe dissessem que eu era um bom garoto normal. (Rindo.) Quanto a mim, porém, me senti extremamente satisfeito: andava pela casa a olhar nos espelhos e a rir entre dentes, pensando, no íntimo: Meu rapaz, você é Flaubert - ou Maupassant, ou Mansfield, ou Proust, ou Chekhov, ou Wolfe, quem quer que fosse o ídolo do momento. Pus-me a escrever com tremenda diligência: minha mente zumbia, todas as noites, a noite toda, e não creio que eu, realmente, haja dormido durante vários anos. Até que descobri que o uísque me acalmava os nervos. Eu era muito jovem, quinze anos, para poder comprá-lo, mas tinha alguns amigos mais velhos muito solícitos a este respeito, e não tardou que eu acumulasse uma maleta cheia de garrafas, contendo de tudo, desde bebidas destiladas de amoras silvestres até Bourbon. Conservava a maleta escondida num armário de parede. Bebia quase somente no fim da tarde; depois, mascava um punhado de Sen Sen e descia para jantar, onde meu procedimento, meus silêncios com os olhos embaciados, tornaram-se, pouco a pouco, motivo de consternação geral. Um dos meus parentes costumava dizer: "Na verdade, se eu não estivesse a par do que se passa, juraria que ele estava bêbedo de cair:' Bem, essa pequena comédia, se é que o era, terminou em descoberta e em certo desastre, e passei muitos dias sem provar sequer uma gota de bebida. Mas parece-me que estou de novo a afastar-me do assunto. Você me perguntou acerca de estímulo. A primeira pessoa que, na verdade, me estimulou, foi, estranhamente, uma professora. Uma professora de inglês que eu tinha no ginásio, Catherine Wood, que apoiou minhas ambições de todas as maneiras, e a quem sempre serei grato. Mais tarde, a partir da primeira vez que comecei a ser publicado, tive todo o incentivo que alguém pudesse jamais desejar, principalmente da parte de Margarita Smith, editora de ficção de Mademoiselle, Mary Louise Aswell, de Harper's Bazaar, e Robert Linscott, da editora Random House. Seria necessário, com efeito, que se fosse uma criatura insaciável, para se desejar mais boa sorte e êxito do que os que tive no início de minha carreira.

- Os três editores a que o senhor se referiu o incentivaram simplesmente mediante a compra de seu trabalho, ou o orientaram, também, com suas criticas?

Bem, não consigo imaginar nada mais incentivador que ter alguém que compre nosso trabalho. Eu jamais escrevo - sou, com efeito, fisicamente, incapaz de escrever coisa alguma que eu não ache que me será paga. Mas, na verdade, as pessoas mencionadas, bem como algumas outras, foram todas muito generosas quanto a conselhos.

- O senhor aprecia o que escreveu há muito tempo tanto quanto o que escreve agora?

Sim. No último verão, por exemplo, li meu romance Other voices, other rooms pela primeira vez desde que ele foi publicado há oito anos, e foi inteiramente como se estivesse lendo algo escrito por um estranho. A verdade é que sou um estranho, quanto a esse livro; a pessoa que o escreveu parece ter tão pouco em comum com o meu ser de hoje. Nossas mentalidades, nossas temperaturas interiores são inteiramente diferentes. A despeito da desgraciosidade, tinha surpreendente intensidade, verdadeira voltagem. Alegra-me muito que eu tenha podido escrever tal livro quando o fiz, pois, do contrário, ele jamais teria sido escrito. Gosto, também, de The grass harp, bem como de vários de meus contos, embora não goste de Miriam, que não passa de um malabarismo intelectual. Não, prefiro Children on their birthdays e Shut a final door, bem como... oh!... alguns outros, principalmente uma narrativa que, parece, não agradou a muita gente, Master misery, que se acha incluída em meu livro A tree of night.

- O senhor publicou, recentemente, um livro acerca da viagem de Porgy and Bess à Rússia. Uma das coisas mais interessantes quanto ao estilo foi sua imparcialidade pouco comum, mesmo em comparação com a reportagem de jornalistas que passaram muitos anos a registrar os acontecimentos de maneira imparcial. Tem-se a impressão de que essa versão deve ter se aproximado tanto da verdade quanto é possível à gente aproximar-se através dos olhos de outrem, o que é surpreendente, tendo-se em conta que o senhor considera a maior parte de sua obra como sendo caracterizada por sua própria qualidade pessoal.

Na verdade, não levo em conta o estilo desse livro, The muses are heard, como sendo acentuadamente diferente do estilo de meus livros de ficção. É possível que seu conteúdo, o fato de tratar de acontecimentos reais, faça que ele assim pareça. Afinal de contas, Muses é pura reportagem e, quando se trata de reportagens, a gente está ocupado com literalidade e superfícies, com implicações sem comentários: não se pode atingir profundidade imediata, como ocorre com a ficção. No entanto, uma das razões que me levaram a fazer reportagem foi provar que eu podia aplicar meu estilo às realidades do jornalismo. Mas creio que meu método de ficção é igualmente imparcial: emocionalmente, faz-me perder o controle de escrever; tenho de exaurir a emoção antes de sentir-me em estado clínico que me permita analisar bastante o estilo e planejá-la e, quanto ao que me diz respeito, essa constituiu uma das normas para se conseguir uma técnica verdadeira. Se minha técnica parece mais pessoal é porque depende da área mais pessoal e reveladora do artista: sua imaginação.

- De que modo esgota o senhor a emoção? É apenas uma questão de refletir acerca da história durante certo tempo, ou há outras considerações?

Não, não creio que seja simplesmente uma questão de tempo. Suponhamos que a gente não coma outra coisa senão maçãs durante uma semana. Indubitàvelmente, a gente esgotaria o apetite por maçãs e, sem dúvida, não esqueceria o sabor das mesmas. Quando termino de escrever uma história, posso não mais sentir qualquer desejo por ela, mas sinto que conheço inteiramente seu sabor. Os artigos relacionados a Porgy and Bess não são aplicáveis a este caso. Aquilo foi reportagem, e as "emoções" não estavam muito em jogo - pelo menos não estavam os difíceis territórios de sentimentos pessoais a que me refiro. Lembro-me de haver lido que Dickens, enquanto escrevia, se contorcia de riso diante do seu humor, e molhava de pranto toda a página, quando um de seus personagens morria. Minha teoria é a de que o escritor deveria ter levado em conta seu espírito e enxugado suas lágrimas antes, muito antes de empenhar-se a despertar reações semelhantes num leitor. Em outras palavras, creio que a maior intensidade na arte, em todas as suas formas, é conseguida deliberadamente, com a cabeça firme e fria. Tomemos, por exemplo, Um Coração Simples, de Flaubert. Uma história emotiva, escrita emotivamente - mas que só poderia ser obra de um artista perfeitamente cônscio da verdadeira técnica, isto é, das necessidades da narrativa. Estou certo de que, em determinado ponto, Flaubert deve ter sentido muito profundamente a história - mas não quando a escreveu. Ou, se quisermos um exemplo mais recente, tomemos esse maravilhoso conto de Katherlne Anne Porter intitulado Noon Wine. Possui ele enorme intensidade, dando a impressão de que está "acontecendo agora"; não obstante, sua redação é tão controlada, os ritmos profundos da narrativa são tão impecáveis, que tenho quase a certeza de que Miss Porter se achava a alguma distância do seu material.

- Seus melhores contos ou livros foram escritos em momentos relativamente tranqüilos de sua vida, ou o senhor trabalha melhor devido a tensões emocionais ou a despeito delas?

Sinto ligeiramente como se jamais tivesse vivido um momento tranqüilo, a menos que se leve em conta a tranqüilidade a que um Nembutal ocasional induz. Todavia, pensando nisso, devo dizer que passei dois anos numa casa muito romântica situada no topo de uma montanha, na Sicília, e suponho que esse período possa ser chamado tranqüilo. Deus bem o sabe como aquilo era quieto. Foi lá que escrevi The grass harp. Mas devo dizer que um pouquinho de tensão, tendo em vista uma data preestabelecida para entrega dos originais, me faz bem.

- Durante os últimos oito anos, o senhor viveu no estrangeiro. Por que decidiu voltar para os Estados Unidos?

Porque sou americano, e jamais poderia ser, nem tenho desejo de ser qualquer outra coisa. Ademais, gosto de cidades, e New York é a única cidade-cidade. Salvo um período de dois anos consecutivos, vim aos Estados Unidos em cada um desses oito anos, e jamais alimentei a idéia de ser um expatriado. Para mim, a Europa é um método de se adquirir perspectiva e cultura, um degrau de pedra conduzindo à maturidade. Mas existe a lei de diminuição de lucros e, há dois anos, aproximadamente, senti que isso começou a acontecer: a Europa me dera muitíssimo, mas, subitamente, senti como se tal processo estivesse ocorrendo ao contrário: dir-se-ia que algo me estava sendo tirado. De modo que voltei para casa, sentindo-me inteiramente adulto e capaz de assentar minha vida no lugar a que pertenço - o que não significa que comprei uma cadeira de balanço e me converti em pedra. Não, com efeito. Eu tenciono dar minhas escapadas ocasionais, enquanto as fronteiras permanecem abertas.

- O senhor lê muito?

Demais. E leio tudo, inclusive rótulos, receitas e anúncios. Tenho paixão por jornais: leio, diàriamente, todos os jornais de New York, as edições dominicais e, também, várias revistas estrangeiras. Os que não compro, leio de pé nas bancas de jornais. Leio, em média, cinco livros por semana: os romances de tamanho normal tomam-me cerca de duas horas. Aprecio novelas sensacionais e gostaria, algum dia, de escrever uma. Embora prefira literatura de primeira classe, minhas, leituras parecem ter-se concentrado em cartas, diários e biografias. Não me importa ler enquanto estou escrevendo: quero dizer, não constato, subitamente, que o estilo de outro escritor está sendo vertido por minha pena. Certa vez, porém, durante um longo período de leitura de James, minhas próprias frases começaram a tornar-se tremendamente longas.

- Quais os autores que o influenciaram mais?

Tanto quanto sei conscientemente, jamais percebi qualquer influência literária direta, embora vários críticos me hajam informado que em meus primeiros livros devo muito a Faulkner, a Welty e a McCullers. É possível. Sou grande admirador de todos três - e de Katherine Anne Porter, também. Não acho, porém, que eles, quando realmente examinados, tenham muito em comum entre si, ou comigo, exceto o fato de todos nós termos nascido no Sul. Entre os treze e os dezesseis anos, eis a idade ideal para se sucumbir a Thomas Wolfe: ele me parecia, então, um grande gênio - e ainda hoje me parece - embora eu não consiga ler, agora, uma frase sequer dele. Assim como outros entusiasmos juvenis foram por água abaixo: Poe, Dickens, Stevenson. Eu os amo em minha lembrança, mas os acho ilegíveis. Há os entusiasmos que permanecem constantes: Flaubert, Turguenev, Chekov, Jane Austen, James, E. M. Forster, Maupassant, Rilke, Proust, Shaw, Willa Cather... Oh, a lista é demasiado extensa, de modo que terminarei com J ames Agee, um belo escritor, cuja morte, há pouco mais de dois anos, constituiu uma verdadeira perda. A obra de Agee, diga-se de passagem, foi muito influenciada pelo cinema. Penso que a maioria dos escritores jovens aprenderam e tomaram muito emprestado ao lado estrutural da técnica cinematográfica. Eu o fiz.

- O senhor já escreveu para o cinema, não é verdade? Qual sua impressão a respeito?

Uma brincadeira. Pelo menos um dos filmes que escrevi, Beat the Devil, foi tremendamente divertido. Trabalhei nele com John Huston, enquanto o filme estava sendo rodado no próprio local, na Itália. Às vezes, as cenas prestes a ser filmadas eram escritas no próprio set. Os atores ficavam inteiramente perplexos - e, não raro, até mesmo Huston parecia não saber o que estava acontecendo. As cenas, naturalmente, tinham de ser escritas observando uma seqüência, mas havia momentos estranhos em que eu tinha apenas na cabeça o esboço real do chamado enredo. Acaso não viu o filme? Oh, deveria vê-lo. É uma pilhéria maravilhosa. Embora eu receie que o produtor não tenha achado agradável. Que vão para o diabo! Sempre que há uma reprise, vou vê-lo e divirto-me muito. Seriamente, porém, não creio que um escritor tenha muita chance de impor-se num filme, a menos que trabalhe no mais estreito entendimento com o diretor, ou seja ele próprio o diretor. Foi somente através do diretor que o cinema criou um único escritor que, trabalhando exclusivamente como argumentista, pôde ser chamado um gênio do cinema. Refiro-me àquele tímido, pequeno e encantador camponês, Zavattini. Que senso visual! Oitenta por cento de todas as boas películas italianas foram feitas baseadas em scripts de Zavattini todos os filmes de De Sica, por exemplo. De Sica é um homem encantador, muito bem dotado e profundamente sofisticado; não obstante, é ele, sobretudo, um megafone para Zavattini, seus filmes são absolutamente criações de Zavattini: cada nuança, cada estado de espírito, cada pormenor do assunto é claramente indicado nos scripts de Zavattini.

- Quais são alguns de seus hábitos de escrever?

Sou um autor completamente horizontal. Não consigo pensar a menos que esteja deitado, na cama ou num sofá, com cigarros e café ao alcance da mão. Preciso estar soltando fumaça e sorvendo café. À medida que a tarde avança, passo do café para chá de hortelã, de xerez para martinis. Não, não uso máquina de escrever. Pelo menos no começo. Escrevo minha primeira versão à mão (lápis). Depois, faço uma revisão completa, também à mão. Essencialmente, penso em mim com sendo um estilista, e os estilistas podem tornar-se notoriamente obsecados pela colocação de uma vírgula, o peso de um ponto e vírgula. Obsessões dessa espécie, e o tempo que perco com elas, me irritam de maneira quase insuportável.

- O senhor parece fazer distinção entre escritores estilistas e escritores que não o são. Quais os escritores que chamaria de estilistas e quais os que não chamaria?

Que é estilo? E qual, como pergunta o Zen Koan, "é o som de uma mão?" Ninguém, na verdade, o sabe; no entanto, ou a gente sabe ou não sabe. Para mim, se me perdoar uma imagem um tanto barata, suponho que o estilo é o espelho da sensibilidade de um artista - muito mais que o conteúdo de sua obra. Até certo ponto, todos os escritores têm estilo: Ronald Firbank, abençoado seja o seu coração, pouco mais tinha do que isso, mas, graças a Deus, sabia. A posse de estilo, de um estilo, que é, não raro, um estorvo, uma força negativa não como deveria ser, mas como o é, digamos em E. M. Forster e Colette, Flaubert e Mark Twain, Hemingway e Isak Dinesen, um refôrço. Dreiser, por exemplo, tem um estilo - mas, oh, Dio buono! E Eugene O'Neill. E Faulkner, brilhante como é. Todos eles me parecem triunfos sobre estilos vigorosos mas negativos, estilos que, na verdade, nada acrescentam à comunicação entre escritor e leitor. Há, ainda, o estilista sem estilo - o que é muito difícil, sumamente admirável, e sempre muito popular: Graham Green, Maugham, Thornton Wilder, John Hersey, Willa Cather, Thurber, Sartre (lembre-se de que não estamos discutindo o conteúdo), J. P. Marquand, e assim por diante. Mas, sim, existe um animal tal como o não-estilista. Só que não são escritores: são datilógrafos. Dati1ógrafos suarentos a enegrecer quilos e quilos de papel com mensagens sem forma, sem olhos, sem ouvidos. Bem, quem são alguns dos jovens escritores que parecem saber que o estilo existe? P. H. Newby, Françoise Sagan, outros assim. Bill Styron, Flannery O'Connor - ela tem excelentes momentos, essa garota. James Merrill. William Goyen - se deixasse de ser histérico. J. D . Salinger principalmente quanto à tradição coloquial. Colin Wilson? Outro datilógrafo.

- O senhor disse que Ronald Firbank pouco mais tinha que estilo. Acha, acaso, que apenas estilo pode tornar grande um escritor?

Não, não creio - embora se possa indagar: que aconteceria a Proust, se a gente o separasse do seu estilo? O estilo jamais constituiu ponto vigoroso nos escritores americanos. Hawthorne proporcionou-nos excelente começo. Nos últimos trinta anos, Hemingway, estilisticamente falando, influenciou maior número de escritores, em escala mundial, que qualquer outro. No momento, penso que a nossa Miss Porter entende tão bem como quem quer que seja a respeito disso.

- Pode um escritor aprender estilo?

Não, não acho que se chegue conscientemente a um estilo, assim como não se chega à cor de nossos próprios olhos. Afinal de tontas, o estilo é a gente. Em última análise a personalidade de um autor tem muito que ver com o seu trabalho. A personalidade tem de estar humanamente lá. Personalidade é uma palavra degradada, eu sei, mas é isso o que quero dizer. As características humanas do escritor, sua palavra ou gesto para com o mundo, têm de aparecer quase como uma personalidade que estabelece contato com o leitor. Se a personalidade é vaga ou confusa, ou meramente literária, ça ne va pas. Faulkner, McCullers - projetam imediatamente sua personalidade.

- É interessante que sua obra tenha sido tão amplamente apreciada na França. Acha que o estilo pode ser traduzido?

Por que não? Contanto que o autor e o tradutor sejam gêmeos artísticos.

- Bem, receio ter interrompido a redação de seu conto ainda em seu manuscrito a lápis. Que acontece a seguir?

Vejamos. Este era o segundo rascunho. Depois, datilografarei um terceiro rascunho em papel amarelo, um tipo muito especial de papel amarelo. Não, não saio da cama para fazer isso. Equilibro a máquina sobre os joelhos. A coisa funciona bem, sem dúvida; consigo datilografar cem palavras por minuto. Bem, terminado o rascunho amarelo, deixo o manuscrito de lado por algum tempo, uma semana, um mês. às vezes mais tempo. Quando o apanho de novo, leio-o tão friamente quanto possível; depois, leio-o, em voz alta, para um ou dois amigos, e decido quais as modificações que desejo fazer, ou se não quero publicá-la. Tenho jogado fora vários contos, um romance inteiro, bem como a metade de outro. Mas, se tudo corre bem, datilografo a versão final em papel branco - e isso é tudo.

- Acaso o livro está completamente organizado em sua cabeça antes que comece a escrevê-lo, ou ele se desenvolve, surpreendentemente, à medida que o vai escrevendo,

Ambas as coisas. Tenho, ínvariavelmente, a ilusão de que todo o desenrolar de uma história? seu princípio, seu meio e seu fim, ocorre em minha mente simultaneamente - que estou vendo tudo num relance. Mas, ao escrever, durante o processo de trabalho, acontecem surpresas infinitas. Graças a Deus, devido às surpresas, aos volteios, a frase que surge, do nada, no momento exato, constitui os dividendos inesperados, aquele pequeno e deleitoso empurrão que faz com que o escritor prossiga. Durante certa época, eu costumava manter cadernos, de notas com esboços destinados a narrativas. Constatei, porém, que fazer isso embotava de certo modo a idéia em minha imaginação. Se a idéia é suficientemente boa, nos pertence, verdadeiramente e a gente não consegue esquecê-la: ela nos perseguirá até que seja escrita.

- Até que ponto sua obra é autobiográfica?

Quase nada, realmente. Um pouco é sugerido por incidentes ou personagens reais, embora tudo que um escritor escreve é, de certo modo, autobiográfico. The grass harp é a única coisa verdadeira que já escrevi e, naturalmente, toda a gente pensou que tudo era inventado, imaginando que Other voices, other rooms era autobiográfico.

- O senhor tem quaisquer idéias ou projetos definidos para o futuro?

(meditativamente) Bem, sim, creio que sim. Tenho sempre escrito aquilo que foi mais fácil para mim até agora. Quero tentar algo diferente, uma espécie de extravagância controlada. Desejo usar mais a minha mente, usar muito mais cores. Hemingway disse, certa feita, que qualquer pessoa pode escrever um romance na primeira pessoa. Percebo agora exatamente o que ele queria dizer.

- O senhor já foi alguma vez tentado por alguma das outras artes?

Não sei se isso é arte, .mas, durante vários anos, me senti atraído pelo palco, pretendendo ser bailarino sapateador. Eu costumava treinar meus sapateados até todos em casa se sentirem com vontade de estrangular-me. Mais tarde, desejei tocar guitarra e cantar em night clubs. De modo que economizei dinheiro para comprar uma guitarra, e recebi lições durante todo um inverno, mas, no fim, a única música que aprendi realmente a tocar era uma coisa para principiantes intitulada I Wish I Were Single Again. Fiquei tão farto daquilo que, certo dia numa estação de ônibus, dei de presente a guitarra a um desconhecido. Sempre me interessei pela pintura, que estudei pelo espaço de três anos, mas acho que o fervor, la vrai chose, não existia.

- Acha que a critica ajuda alguma coisa?

Antes da publicação, e quando é feita por pessoas em cuja opinião a gente confia, sim, claro que a crítica ajuda. Mas depois que algo é publicado, só o que quero ler ou ouvir é elogio. Qualquer outra coisa, menos do que isso, é uma chatice, e dar-lhe-ei cinqüenta dólares se você me mostrar um escritor que possa honestamente dizer que foi alguma vez ajudado pelas críticas alambicadas e pela condescendência de comentaristas literários. Não quero com isso dizer que nenhum dos criticas profissionais merece que se lhe dê atenção; mas poucos, dentre os bons críticos, escrevem com regularidade. Mais que tudo, acredito em a gente se enrijecer quanto à opinião dos outros. Tenho recebido, e continuo a receber, meu quinhão de ofensas, algumas delas extremamente pessoais, mas não me causam mais o menor abalo. Posso ler o mais ofensivo libelo contra mim, e minha pulsação jamais se altera no mínimo. E, a este respeito, há um conselho que recomendo vivamente: jamais se rebaixe, respondendo a um crítico. Jamais! Escreva mentalmente aquelas cartas ao editor, mas jamais ponha suas palavras no papel.

- Quais são algumas de suas singularidades?

Creio que minhas superstições podem ser chamadas de singularidades. Tenho de multiplicar todos os números: há certas pessoas para as quais jamais telefono porque o número de seus telefones multiplicados, formam algarismos que não dão sorte. Ou então não aceitarei um quarto de hotel por essa mesma razão. Não suporto a presença de rosas amarelas - o que é triste, pois são minha flor predileta. Não permito três tocos de cigarros no mesmo cinzeiro. Não viajarei num avião em que haja duas freiras. Não começo nem termino nada numa sexta-feira. É infindável o número de coisas que não posso fazer e que não faço. Mas sinto um conforto curioso ao obedecer a esses conceitos primitivos.

- O senhor tem sido citado como tendo dito que seus passatempos preferidos são "conversação, leitura e escrever, nessa ordem". O senhor diz isso literalmente?

Creio que sim. Pelo menos, estou inteiramente certo de que a conversação sempre virá em primeiro lugar, quanto a mim. Gosto de ouvir e gosto de falar. Santo Deus, jovem, então não vê que eu gosto de falar?

Entrevista de Pati Hill, in Paris Review, n° 16, 1957 e republicada no livro «Escritores em ação: as famosas entrevistas à Paris Review», Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, de onde foi extraída (fonte)