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Günter Grass (2010)

Der Spiegel: Sr. Grass, seu novo livro é intitulado “Grimms Wörter. Eine Liebeserklärung” (Palavras dos Grimm. Uma declaração de amor). Como começou esse amor pelos Irmãos Grimm, os linguistas alemães que famosamente reuniram contos de fadas no século 19?

Günter Grass: Meu relacionamento com Wilhelm e Jacob Grimm começou na minha infância. Eu cresci com os contos de fadas dos Grimm. Eu até mesmo assisti uma produção teatral de o “Pequeno Polegar” durante o Advento do Teatro do Estado em Danzig (nota do editor: a atual Gdansk), que minha mãe me levou para ver. Então, posteriormente, os irmãos influenciaram minha obra criativa.

Spiegel: De que forma?

Grass: Bem, o Pequeno Polegar vive em Oskar Matzerath de “O Tambor”. Os próprios Jacob e Wilhelm têm um papel em muitos dos meus manuscritos. Em “A Ratazana”, por exemplo, eles são retratados como um ministro e um vice-ministro que tentam impedir a morte das florestas (pela chuva ácida).

Spiegel: O que o senhor considera mais atraente a respeito dos irmãos?

Grass: Sua natureza firme, não condescendente, acima de tudo. Em 1837, eles protestaram em Göttingen contra a abolição da Constituição (do Reino de Hanover) e, portanto, contra o poder do Estado. Como os outros professores rebeldes no grupo conhecido como Sete de Göttingen, eles perderam seus cargos. E a tarefa na qual embarcaram depois disso era basicamente impossível: um dicionário alemão repleto de citações e sentenças de exemplo. E eles só chegaram até a sexta letra do alfabeto. Outros concluíram o dicionário.

Spiegel: Mais de 120 anos depois.

Grass: Esse longo período também me fascina. Especialistas em estudos alemães de ambas as partes da Alemanha trabalharam sobre isso nos últimos 15 anos. No meio da Guerra Fria, eles se sentaram discretamente em suas mesas em Berlim Oriental e Göttingen e reuniram notas de rodapé para um dicionário pan-alemão. É um reflexo da mesma história alemã de que falo em “Grimms Wörter”.

Spiegel: Assim como sua própria história pessoal com este país também exerce um papel em seu livro.

Grass: Eu me concentrei nos meus anos mais novos no livro “Nas Peles da Cebola”, depois em “Die Box” eu escrevi sobre meus laços e embaraços familiares. Este livro é sobre o lado político e social. A vida dos Grimm, que viveram durante um período marcado por mudança radical, assim como eu, se presta a isso.

Spiegel: O senhor descreveu os dois irmãos como “investigadores de palavras”, preocupados a respeito de cada letra individual. O senhor também escreve: “Por um lado, as palavras fazem sentido. Por outro, elas são apropriadas para criar absurdo. As palavras podem ser benéficas ou prejudiciais”. Como as várias facetas das palavras moldaram sua própria vida?

Grass: Eu descobri que as palavras que são repletas de pathos e criam uma euforia sedutora são aptas para promover absurdos. “Vocês querem guerra total?”, por Adolf Hitler, é um exemplo. Mas a mesma coisa se aplica à sentença: “Nossa liberdade também está sendo defendida no Hindu Kush”. (Nota do editor: A sentença foi famosamente dita pelo ex-ministro da Defesa alemão, Peter Struck, para justificar a missão militar da Alemanha no Afeganistão.) Essas sentenças carregam um forte significado e podem exercer esse significado porque não são suficientemente questionadas. Eu já ouvi minha cota de palavras prejudiciais. Eu acho que é especialmente grave quando cidadãos como eu, que apontam os abusos em seus países, são tratados como “idealistas”. É assim que uma frase que pode ser usada para deter uma discussão se torna parte do uso comum.

Spiegel: De que palavras benéficas o senhor se recorda?

Grass: As realmente maravilhosas estão ligadas à minha infância. “Adebar”, outra palavra para cegonha, redesperta todo um cosmo de lembranças para mim. Outra é “Labsal” (refresco), que já foi quase completamente esquecida. Eu adoro o som do longo “a” repetido. Os Irmãos Grimm também consideravam isso fascinante. Eles praticamente faziam sexo oral com as vogais. “Labsal” soa tão reconfortante. Faz você pensar em voltar para casa em segurança, após uma experiência terrível.

Spiegel: Soa como se a língua significasse um sentimento de segurança e um lar para você.

Grass: Isso é certamente verdadeiro. Eu escrevi meu romance “O Tambor” em Paris, onde também comecei a trabalhar em “Anos de Cão”. Mas após quatro anos eu notei quão perdido me sentia, cercado por uma língua estrangeira. Eu tinha que voltar, voltar para um lugar de língua alemã. Minha experiência era semelhante à de muitos escritores que emigraram para os Estados Unidos durante o período nazista. Alguns deles mal podiam suportar, apesar de um ditador brutal estar no controle em casa. Eles careciam da linguagem que precisavam para se fazerem ser entendidos e entender os outros.

Spiegel: Essa mesma experiência, apesar de não tão severa, pode ser sentida no próprio país de uma pessoa. A cultura jovem tem seu próprio estilo de linguagem distinto. O senhor sempre entende o que seus netos estão dizendo?

Grass: É claro. Para mim, é um ganho maravilhoso o fato de conseguir manter, com a ajuda de meus netos, o jargão atual. Em troca, expressões como a velha palavra “knorke” (excelente) de Berlim não são mais usadas.

Spiegel: O senhor lamenta a perda?

Grass: Felizmente, uma palavra como “knorke” está preservada na literatura. Em geral, eu concordo com Jacob Grimm e sinto que devemos permitir as mudanças e o crescimento descontrolado da língua. Apesar disso também permitir o desenvolvimento de novas palavras potencialmente ameaçadoras, a língua precisa da chance de constantemente se renovar. Na França, onde a Académie française praticamente policia a língua, nós vemos que a língua pode se tornar formal e rígida quando é excessivamente protegida.


Spiegel: Em “Grimms Wörter”, o senhor até mesmo escreve que não tem objeção às modificações de seu nome.

Grass: Eu tomo a liberdade de escrever Grass tanto com dois esses ou com “ß” (nota do editor: a letra alemã equivalente aos dois esses). Antes da reforma ortográfica alemã, a palavra “Hass” (ódio) também era escrita com “ß”. Pessoalmente, eu gosto de usar o “ß” quando assino meu nome. Eu gosto desses jogos, assim como fico empolgado a respeito de fontes diferentes ou da qualidade do papel do livro. Felizmente, com Gerhard Steidl eu encontrei um editor que é um fanático por livros e que trata seu papel e equipamento de impressão com grande afeição.

Spiegel: O senhor é um dos poucos escritores que se encarregam do design de seus próprios livros. O senhor cuidou do design de todas as capas pessoalmente. Por que isso é tão importante para o senhor?

Grass: É o toque final. Ele é uma parte tão importante do livro quanto a primeira sentença. E exige o mesmo cuidado que é necessário ao escrever.

Spiegel: Quais são as características de uma boa capa?

Grass: Ela deve resumir e simplificar o conteúdo do livro como um emblema. Na capa de “Anos de Cão”, eu consegui isso com a cabeça de cachorro, que parece um fantoche de teatro de sombras. Para “Anestesia Local”, eu escolhi um isqueiro com um dedo sobre ele. Desta vez vez são letras. Não faria sentido trabalhar com um duplo retrato dos Irmãos Grimm, porque transmitiria apenas parte da mensagem. Eu peguei nas mãos o livro finalizado pela primeira vez há poucos dias. Toda vez é uma experiência maravilhosa.

Spiegel: Então o senhor deve estar consternado com os desdobramentos no mercado literário. As vendas de livros eletrônicos estão crescendo rapidamente nos Estados Unidos.

Grass: Eu não acredito que isso signifique o fim do livro. Ele adquirirá um valor diferente. A produção em massa será reduzida e o livro novamente adquirirá a aparência de um objeto digno de se manter e passar para nossos filhos.

Spiegel: O senhor consegue imaginar “Grimms Wörter” em um iPad?

Grass: Dificilmente. Mas eu também cheguei a um acordo com minha editora para que nenhum dos meus livros esteja disponível para isso até que uma lei protegendo os autores esteja em vigor. Eu só posso aconselhar cada autor a desenvolver a mesma autoconfiança neste relacionamento.

Spiegel: O senhor está convocando um protesto?

Grass: Eu gostaria de colocar um fim a este movimento para leitura em computadores, mas parece que ninguém é capaz disso. Todavia, os reveses do processo eletrônico já são aparentes durante a redação do manuscrito. A maioria dos autores jovens escreve diretamente em seus computadores, e então editam e trabalham em seus arquivos. No meu caso, há muitos passos preliminares: uma versão manuscrita, duas que datilografo eu mesmo na minha máquina de escrever Olivetti e, finalmente, várias cópias de versões que minha secretária digita no computador e imprime, nas quais realizo várias correções à mão. Esses passos são perdidos quando você escreve diretamente no computador.

Spiegel: O senhor não se sente antiquado com sua Olivetti?

Grass: Não. No computador, um texto sempre parece de certa forma finalizado, mesmo quando está longe disso. Isso é tentador. Eu geralmente escrevo a primeira versão, manuscrita, tudo de uma vez, e quando há algo que eu não gosto, eu deixo um espaço em branco. Eu preencho essas lacunas na versão da Olivetti, e por causa dessa minúcia, o texto também adquire uma verbosidade tediosa. Nas versões que se seguem, eu tento combinar a originalidade da primeira versão com a minuciosidade da segunda. Com essa abordagem lenta, há menos risco de infiltração de esperteza e arbitrariedade.

Spiegel: Mesmo assim sua linguagem mudou ao longo das décadas?

Grass: Inicialmente, eu tentei retirar todas as paradas. Quando escrevi “O Tambor”, “Gato e Rato” e “Anos de Cão”, era um momento em que muitos escritores mais velhos sentiam que a língua alemã não deveria mais ser autorizada a se acostumar de novo ao excesso.

Spiegel: O senhor fala dos representantes da chamada “Kahlschlagliteratur” (literatura bem definida) do período pós-guerra, que eram conhecidos por sua linguagem simples e direta?

Grass: Sim, e esses autores tinham todos os motivos para serem cautelosos. A língua alemã tinha sido manchada no período nazista. Mas nós autores jovens, incluindo Martin Walser e Hans Magnus Enzensberger, não queríamos nos sentir acorrentados e nos recusávamos a condenar a linguagem como um todo. Como resultado, minha escrita derivou de um sentimento de querer exibir tudo o que a língua tem a oferecer. Agora, na velhice, a experiência também faz parte disso. De forma que a escrita está mais concisa.

Spiegel: O que o senhor quer dizer?

Grass: Em um grau elevado, as experiências políticas da minha vida, que descrevo em “Grimms Wörter”. Em 1961, por exemplo, eu viajei pela primeira vez como parte da comitiva de campanha de Willy Brandt. (Nota do editor: Willy Brandt, na época o prefeito de Berlim Ocidental, concorreu a chanceler da Alemanha em 1961. Ele se tornou chanceler posteriormente, em 1969.) A construção do Muro de Berlim também foi uma dessas experiências, assim como a reunificação alemã em 1989/1990 e minhas muitas visitas à Alemanha Oriental antes disso.

Spiegel: O que levou o senhor a ir para lá?

Grass: Eu acreditava firmemente no conceito de uma nação culturalmente unida. Como parte dela, nós escritores do Ocidente e do Oriente nos encontrávamos em apartamentos privados em Berlim Oriental e líamos nossos manuscritos. Eu duvido que os informantes que trabalhavam para a Stasi (nota do editor: a polícia secreta alemã-oriental) entendiam do que eu estava atrás. Eles não conseguiam entender que alguém poderia criticar os dois lados diferentes. Ou pelo menos foi a impressão que tive quando li meu arquivo da Stasi.

Spiegel: Como o senhor se sentiu quando o leu?

Grass: Entediado, em grande parte. Por muito tempo eu me recusei a lê-lo e nunca fiz o requerimento. Há mais de 2 mil páginas. No final, a sra. Birthler (nota do editor: Marianne Birthler, a Comissária Federal para os Arquivos da Stasi) os entregou para mim, mas eu pedi para que todas as passagens onde os informantes fossem citados fossem censuradas. Eu não queria saber quem é que me espionava. Não é mais importante atualmente, 20 anos após a reunificação.

Spiegel: O senhor argumentou veementemente contra a reunificação. Qual é seu veredicto hoje?

Grass: Eu ainda acredito, como no passado, que não deveríamos ter anexado a Alemanha Oriental daquela forma apressada. É absurdo que tenhamos perdido tamanha oportunidade. Nós não devíamos ter asfixiado aquele momento, no qual, após duas ditaduras, a consciência democrática tinha florido naquelas quatro palavras famosas: “Nós somos o povo!” (Nota do editor: “Wir sind das Volk!” –“nós somos o povo!”– foi um slogan cantado pelos manifestantes pró-democracia na Alemanha Oriental, nos meses após a queda do Muro de Berlim.) Em pouco tempo, o país e sua indústria estavam liquidados, enquanto a Treuhand (nota do editor: a agência que privatizou as empresas estatais da Alemanha Oriental) vendia seus ativos por quase nada. Durante o longo período do pós-guerra, essas 17 milhões de pessoas (na Alemanha Oriental) tiveram que suportar sozinhas o principal fardo de uma guerra que foi travada e perdida por todos os alemães.

Spiegel: O que o senhor teria feito?

Grass: Eu teria aumentado acentuadamente os impostos e não teria buscado a reunificação com fundos emprestados. Há uma pouco de autoilusão na noção de que agora, no ano do 20º aniversário da reunificação, nós estamos nos parabenizando em como as coisas transcorreram maravilhosamente. Os fatos dizem o contrário: o desemprego elevado, as áreas despovoadas. E o fenômeno que as pessoas chamam de “o Muro em nossas mentes” ainda existe. A forma como foi tratado o Partido do Socialismo Democrático contribuiu para essa mentalidade. Ele foi enchido de elogios e tornou-se popular porque, apesar de ser o partido sucessor do Partido Socialista Unido da Alemanha (nota do editor: o partido comunista da Alemanha Oriental), ele não foi responsabilizado (pelas ações do Estado alemão-oriental). Na verdade, ele recebeu passe livre, e essa abordagem prejudicou o Partido Social-Democrata (SPD).

Spiegel: A perda da importância do SPD incomoda o senhor? O Partido alemão tradicionalmente de esquerda tem uma história longa e respeitável, mas ele perdeu sua popularidade quando se deslocou para o centro nos últimos anos, durante o período de Gerhard Schröder.

Grass: Bem, o Partido Social-Democrata representa um elemento de continuidade. É o motivo para me agarrar a ele. Nós temos pouca continuidade na Alemanha e o SPD está prestes a fazer 150 anos. Ele cometeu erros e passou por muita coisa. Mas seus princípios sociais, que estão enraizados no movimento trabalhista europeu do século 19, foram e ainda são de importância fundamental para nosso país. Apesar de muitos social-democratas mais jovens estarem muito afastados da história de seu partido, isso é algo que o SPD também superará.

Spiegel: Em “Grimms Wörter”, o senhor não faz menção aos possíveis erros em suas opiniões políticas. O senhor nunca errou?

Grass: Após a reunificação, eu temia a possibilidade de surgir uma espécie de Grande Alemanha, com um poder centralizado em Berlim. Mas felizmente o federalismo alemão se mostrou forte o suficiente para afastar quaisquer dessas tendências. Por mais inconveniente que frequentemente seja, eu acredito que o contrapeso dos Estados é a melhor opção para a Alemanha no final.

Spiegel: O senhor pode pensar em outros erros que cometeu durante sua vida?

Grass: No meu caso, como todos sabem, eu fui seduzido pela Juventude de Hitler quando era mais novo. Eu deixo isso bem claro no meu livro, “Nas Peles da Cebola”. Eu suponho que tenha adquirido certa imunidade a qualquer postura ideológica por causa desse erro.

Spiegel: Em “Grimms Wörter”, o senhor fala novamente de sua passagem pela Waffen-SS e descreve seu juramento em uma noite fria e clara. O senhor tinha 17 anos na época. O senhor também considera esse momento um dos erros de sua vida?

Grass: Não foi uma má ação de minha parte. Eu fui convocado, assim como milhares de outros foram. Eu não me apresentei como voluntário para a Waffen-SS. O fim da guerra me liberou do juramento de obediência cega. Depois disso, eu sabia que nunca mais faria um juramento.

Spiegel: O senhor está enraizado na história alemã, mas sempre fez objeção a qualquer forma de culto do nacionalismo. Como o senhor se sente a respeito do novo entusiasmo patriótico, como vimos durante a Copa do Mundo de futebol, por exemplo?

Grass: Eu sempre acreditei que não se pode deixar a discussão a respeito do nacionalismo inteiramente para a direita. Nós só podemos exercer um papel responsável na Europa se pudermos justificar de forma eficaz nosso próprio senso de identidade nacional –além do nacionalismo. Mas também havia aspectos alegres nas pequenas bandeiras alemãs que as pessoas estavam acenando durante a Copa do Mundo. Eu vi mulheres colocando chupetas pretas, vermelhas e douradas nas bocas de seus bebês. Esse tipo de coisa compensa qualquer senso de pathos percebido.

Spiegel: O senhor não é o único escritor de sua geração a fazer declarações políticas repetidas vezes. O senhor percebe uma falta de vigor semelhante entre os escritores mais jovens?

Grass: Eu consideraria lamentável se não extraíssem uma lição desta tradição relativamente breve. Eles não devem repetir os erros da República de Weimar e se retirarem para seus mundos privados. Os intelectuais contribuíram enormemente para o desenvolvimento de nossa jovem democracia na Alemanha Ocidental em uma democracia madura. Infelizmente, há sinais de que essa contribuição está diminuindo. A crise financeira, as crianças pobres, a deportação (de imigrantes ilegais), a crescente desigualdade entre ricos e pobres: todas essas são questões a respeito das quais os escritores mais jovens deveriam desenvolver e expressar uma opinião.

Spiegel: O senhor está menos envolvido politicamente do que antes. Em uma carta aberta para a chanceler, o escritor Martin Walser, que é um de seus contemporâneos, pediu pela retirada da Alemanha do Afeganistão. O senhor não tem uma posição a respeito dessa guerra?

Grass: É claro que tenho. Mas a guerra no Afeganistão, entre todas as guerras, não pode ser simplificada demais. Diferente da guerra contra o Iraque, há um mandato da ONU. Nosso envolvimento lá provou ser um enorme erro, mas é difícil encontrar uma forma responsável de recuo dessa responsabilidade. Os Estados Unidos certamente não deveriam ter recebido o papel de comando. Os americanos são incapazes de travar esse tipo de guerra. Eles estão fracassando de novo, assim como fracassaram no Vietnã, e estamos fracassando com eles.

Spiegel: Se não há uma solução clara, sua voz como ganhador do Nobel tem mais peso hoje do que no passado. Por que o senhor está se contendo?

Grass: Eu não tenho a impressão de que é isso o que estou fazendo. Além disso, eu não passo o dia todo pensando no fato de que sou um ganhador do Nobel. Às vezes sou lembrado disso, geralmente quando opino sobre algo. Certamente não me ajuda quando escrevo, apesar de também não atrapalhar.

Spiegel: Isso não o coloca sob pressão?

Grass: O prêmio não inibe nem um pouco a minha escrita. Talvez isso aconteça por tê-lo recebido em uma idade avançada. Na verdade, o prêmio que o Grupo 47 (nota do editor: uma prestigiada associação pós-guerra de escritores alemães) me deu em 1958 foi mais importante para mim, porque eu era pobre como um rato de igreja na época. E foi concedido por outros escritores, o que lhe dava um significado completamente diferente. Eu não estou fazendo pouco do Prêmio Nobel, mas ele não teve um impacto influente na minha vida.

Spiegel: Mas seja honesto: o senhor não esperou recebê-lo por um longo tempo?

Grass: Não mais, especialmente no fim. Aconteceu sempre da mesma forma por 20 anos: todo outono, jornalistas me telefonavam para me dizer que eu estava entre os candidatos e queriam agendar a primeira entrevista comigo. E então as coisas se acalmavam novamente por um ano.

Spiegel: O senhor não ficou irritado quando o escritor alemão Heinrich Böll recebeu o prêmio em 1972?

Grass: Não, não fiquei, mesmo que você não acredite em mim. Eu estava no meio de uma campanha eleitoral do SPD, sentado em um ônibus VW, em uma praça de mercado, em algum lugar no Estado da Renânia-Palatinado. Nós estávamos realizando esses eventos espontâneos que envolviam dirigir até cidades pequenas. Eu estava falando ao microfone, fazendo um breve discurso, quando alguém me entregou um bilhete dizendo: Böll ganhou o Prêmio Nobel. Eu incorporei aquilo na campanha. Por acaso, nós dois defendíamos a mesma ideia política.

Spiegel: O senhor tira uma conclusão em seu novo livro. O senhor escreve que “superar obstáculos” na vida nunca termina e que “mesmo as histórias tradicionais são para ser recontadas. E após cada fim, eu percebi que tinha mais trabalho a fazer”. Que tipo de trabalho o senhor pretende fazer a seguir?

Grass: Após um período escrevendo que durou muitos anos, eu tenho que mudar as ferramentas e me dedicar novamente à impressão. Eu quero criar novas gravuras e pontas-secas para meu romance “Anos de Cão”, para o 50º aniversário de sua publicação. “Grimms Wörter” certamente marcará o fim das minhas obras autobiográficas. Na minha idade, a pessoa fica surpresa ao conseguir experimentar a próxima primavera, e eu sei quanto tempo demora para concluir um livro com um conceito épico.

Spiegel: O senhor teme o fim de sua vida?

Grass: Não. Eu percebi que, por um lado, a pessoa fica pronta para isso. Eu também percebi que mantive uma certa dose de curiosidade. O que acontecerá aos meus netos? Quais serão os resultados do futebol no fim de semana? É claro, também há algumas banalidades que ainda quero experimentar. Jacob Grimm escreveu algo maravilhoso sobre o envelhecimento, e também encontrei esta sentença em outro de seus trabalhos: “A última colheita está no caule”. Aquilo me tocou e, é claro, me levou prontamente a refletir sobre minha própria idade. Ao fazê-lo, eu não encontrei nenhum medo predominante da morte.

Spiegel: Sr. Grass, obrigado por esta entrevista.

Entrevista à revista Der Spiegel publicada a 20 de Agosto de 2010. Tradução de George El Khouri Andolfato (fonte)